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domingo, 10 de fevereiro de 2013

A Conversão de Kalonda de Kangate

Uma intrigante narrativa da conversão de um cacique/pajé no Congo, África.

O sol africano se derramava sobre nós à medida que subíamos o caminho da montanha até a aldeia entre as árvores. As pessoas de Kangate, no lado selvagem de Babindi, no Congo Central raramente haviam visto um homem branco. Gritos entusiasmados me cumprimentavam a mim e a meus três amigos congoleses, à medida que entrávamos naquele país empoeirado para atender um estranho pedido de um velho cacique entre este povo isolado. Alguns dias antes, um mensageiro apareceu em nossa base da missão.

— Contador da Palavra, — o mensageiro disse — Chefe Kalonda quer falar com você.

Por que esse velho tratante quer me ver? Pensei e a questão permaneceu em minha mente enquanto nos dirigíamos com dificuldade através da região montanhosa em estradas perigosas. Agora finalmente saberíamos.

À sombra da cabana do cacique, rodeada por cabanas menores de muitas esposas, um homem muito idoso, magro, estava assentado, envolto num cobertor velho. Esse chefe idoso, doente e enfraquecido, entronizado em seu assento enfeitado com pele de leopardo, levantou uma mão fraca e nos cumprimentou com as saudações costumeiras da terra:

— Muoyo wenu, vida para você.

— Wuoyo webe, — respondemos — vida para você.

Lembrei—me das histórias que ouvi sobre esse chefe, que já havia sido poderoso. Há vinte anos, Kalonda era temido e respeitado numa extensão de cento e sessenta quilômetros ou mais ao redor de seu domínio. Como juiz, corajoso e selvagem, ele exercia livremente o poder da vida e da morte sobre seu povo, e de morte ou de escravidão sobre seus cativos. Seu reconhecimento como chefe era suplantado só por seu grande poder como curandeiro. Os líderes vinham de aldeias distantes para comprar suas simpatias e maldições.

Um dia, o chefe de um domínio vizinho Kasenda, do povo de Balubal, chegou na aldeia de Kangate. O chefe visitante estava preocupado e precisava de ajuda.

— Matei o mensageiro do dinheiro da Missão e tomei o dinheiro que ele estava trazendo para seus pregadores e professores — Ele contou. — Agora o morto voltou à vida e retornou aos homens brancos e lhes contou que fiz. Me dê um remédio para eu me tornar invisível quando os soldados vierem!

— Volte para seu país. — Replicou Kalonda. Pegue doze cabras, seis mulheres jovens e fortes, dez lanças e dez facas e volte para comprar meu remédio. Esse é o meu preço para um remédio poderoso o suficiente para torna-lo invisível.

Reclamando do alto custo dessa proteção, chefe Kasenda voltou para Balubal para reunir cabras, mulheres e armas.

O chefe Kalonda nesse meio tempo começou a compor seu remédio prometido. Enviando sua guarda, ele dirigiu a captura de uma jovem de uma tribo vizinha. Ela foi trazida diante do chefe. Com um ritual complexo, os guerreiros do chefe cortaram a cabeça da cativa, necessária para a “simpatia invisível” de Kalonda. Rituais canibais estavam envolvidos nos procedimentos. No dia marcado, o remédio estava presente, as cabras, as mulheres e as armas foram oferecidas, e o negócio, fechado, para satisfação dos dois líderes.

Quando os soldados chegaram, várias semanas depois, para capturar o juiz de Balubal, Kasenda entrou silenciosamente em sua cabana, pegou sua cabeça que o tornaria invisível e saiu em seu quintal para rir das tropas que, perplexas, não seriam capazes de vê-lo. Para sua surpresa, ódio e consequente pesar, eles o rodearam, amarraram-no seguramente e levaram-no até a prisão do homem branco. Ainda segurando seu remédio caríssimo, Kasenda ficou revoltado com seu ex-amigo, Kalonda a simpatia falhara. Ele jogou uma praga em Kalonda e deu seu nome como assassino da mulher cuja cabeça ele tinha em suas mãos. Kalonda também foi preso.

Quinze estações se passaram, e todas as pessoas de Babinda e Balubal se esqueceram de seus ex-chefes. Condenados, a princípio, a morrer na prisão, ambos foram salvos quando suas execuções foram postergadas três vezes; finalmente as sentenças foram mudadas para quinze anos de prisão em trabalho forçado. Para os chefes, esse julgamento foi tão duro quanto a morte.

Agora, solto depois de quinze anos de cativeiro, o velho Kalonda teve afinal de vir para morrer. Por entre o conselho, olhei aquele homem velho, lembrando-me do que conhecia do seu passado. Depois de um silêncio costumeiro de respeito, comecei a conversa:

— Nfumu, chefe, seu mensageiro diz que você deseja falar comigo. Eu vim. O que quer?

A resposta de Kalonda espantou-me

— Fale-me sob e o Deus do homem branco.

— O Deus que eu sigo não é Deus de um homem branco. Ele é o Pai da Nova Tribo, Seu povo, Jesus Cristo é o grande Chefe da Nova Tribo e Ele aceita qualquer um que quiser segui-lo. Meus amigos aqui também são membros da Nova Tribo. Eles lhe falarão sobre isso. Voltei-me para meus colegas congoleses que realmente entendiam a batalha que o velho Kalonda estava enfrentando. Um de meus companheiros era um velho médico curandeiro que se tornara cristão e agora era um pastor eficiente entre sua gente. Acompanhei com profunda preocupação a batalha que ocorria entre os poderes, que são reais, e a libertação, que é possível.

Braceletes de simpatias de latão adornavam o braço fraco, uma vez forte, do velho chefe.

— Você ainda acredita em seu remédio. — Observou o Pastor Mutombo — Porque você pergunta sobre outro Deus?

Com grande relutância, o velho homem tirou os braceletes do braço, colocou-os no chão e disse:

— Agora me fale, “Contador da Palavra”, sobre o Deus poderoso.

Com aquelas bandas de latão aos nossos pés, comecei a calcular um pouco do preço que ele estava tendo de pagar pelo que pedia. Ele havia renunciado seu poder, e eu o ouvi murmurar:

— Costumava ter oito esposas boas e fortes, mas todas, exceto três velhas, fugiram enquanto eu estava na prisão. Tudo o que me restou são mulheres velhas que estão muito fracas para trabalhar.

Meus olhos seguiram seu olhar em direção às três mulheres velhas agachadas perto de uma cabana próxima. Elas estavam resmungando agitadamente umas com as outras e evidentemente infelizes com os acontecimentos.

— Seu remédio não pôde manter suas mulheres enquanto estava fora? — O pastor perguntou, e ele respondeu com um grunhido.

— Agora, — o pastor continuou — o remédio da guerra no seu cinto mostra onde você busca poder.

Depois de uma pausa longa, pensativa, o velho guerreiro cortou a pequena sacola de pele de seu cinto e jogou-a no chão.

— Agora, o patuá do pescoço. — O velho homem colocou uma mão trêmula na tira ao redor do pescoço. Esse pequeno amuleto lhe dava proteção contra seus inimigos e tirava o poder de suas magias. Silenciosamente ele esperou até que, finalmente, quebrou a tira e deixou sua “segurança” cair aos nossos pés.

Exclamações de respeito por sua coragem ecoaram ao redor do conselho de homens que assistia a tudo.

— Sua Buanga bua Bunfumu, — o pastor lembrou —, seu remédio de chefe.

Exausto, Kalonda se levantou, entrou em sua cabana e retornou com um grande chifre de antílope cheio da certeza de seu poder sobre sua gente (nunca soube ao certo o que forma tais poderes, mas fui informado de que os chifres guardam porções de cabelo, olhos de sapo, um dente de leão e as garras de um pássaro). Poções mágicas se seguiram e uma hoste de outras simpatias protetoras que dão às pessoas da floresta algum alívio do constante medo de viver.

— Essa é toda proteção que tenho, disse Kalonda. — Mas o pastor evidentemente estava esperando por outra entrega mais cara.

— Agora dê sua “simpatia da vida”, Kalonda, e eu lhe falarei sobre o Deus da Nova Tribo.

O velho homem tremeu, desabou a transpirar, balançou a cabeça e enrolou o cobertor esfarrapado no tórax magro. As três esposas velhas protestaram por sua renúncia a seus remédios e com esta última ordem elas começaram o lamento de morte e jogaram terra no ar sobre suas cabeças. Com esse aviso sobre sua morte iminente, Kalonda se levantou de suas reflexões temerosas, entrou novamente em sua cabana e voltou com um pequeno pacote de peles. Com toda a dignidade de um grande líder, ele silenciou o lamento das mulheres e observou atenciosamente seus conselheiros.

— Contador da Palavra — disse ele, segurando o pequeno embrulho em suas mãos magras, — você pediu a vida de Kalonda! Este remédio protegeu minha vida de todos os meus inimigos por muitos anos. Muitos que me odeiam ainda vivem e têm pragas sobre minha vida. Quando eu jogar fora esse remédio, todas as pragas cairão sobre mim, meus espíritos irão remover sua proteção e eu morrerei. Mas Kalonda não tem medo de morrer.

Quando o embrulho caiu no chão, o velho chefe se levantou ereto, ergueu seus olhos para os montes distantes e esperou pela morte. Sentamos em silêncio à medida que os segundos se transformavam em minutos e a tensão crescia no círculo dos espectadores que aguardavam a morte de seu chefe.

Depois de um longo período, o velho chefe olhou em nós e seu lábios partiram num sorriso aliviado.

Eu ainda estou vivo! Kalonda não caiu morto!

Levei muito tempo para responder às perguntas do velho Kalonda e de seu povo. Perguntas sobre o Deus que ele disse que sempre tinha temido, mas nunca conhecido. À medida que as sombras da tarde cresciam, o velho chefe se levantou com dignidade diante de seu povo. Numa voz calma e confiante ele anunciou:

— Kalonda tem um novo chefe. Eu sigo “Yesu Kilisto”, e ele me ajudará a atravessar o rio, me guiará através da floresta escura e me levará para sua aldeia onde eu posso sentar com seu povo. Pertenço à Nova Tribo. Kalonda quer que todo o seu povo siga o Chefe Yesu e vá com ele para a Aldeia de Deus.

Não muitos dias depois de minha visita a Kangate, um mensageiro chegou com um breve recado: — Kalonda foi para sua jornada para encontrar seu novo Chefe.

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Paul Brown Long escreveu este fato no livro “The man in the leather hat and other stories”, Baker Book House, 1986. E a história foi citada por Paul G. Hiebert em “O Evangelho e a Diversidade das Culturas”, páginas 199-202, Vida Nova, 2001. Publicada pela primeira vez na web em português pelo site Missões e Adoração. O livro é maravilhoso. Vale a pena comprá-lo. Fica a dica!

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