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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Divino Companheiro de Todas as Horas - B. Simpson

"Mas eles o constrangeram dizendo: Fica conosco, porque é tarde e o dia já declina. E entrou para ficar com eles" (Lc 24.29).

A história do caminho para Emaús, que Lucas nos conta com tanta simplicidade dramática, proporciona um quadro ímpar do Cristo ressurrecto no coração de sua igreja, sem paralelos em qualquer dos outros relatos da ressurreição.

O Cristo dos quarenta dias aí representado, embora seja o mesmo Cristo da Judéia e da Galiléia, ascendeu agora a um novo plano, mais espiritual, mais misterioso e sobrenatural. Ele estava elevando os pensamentos dos discípulos para compreenderem a natureza da amizade divina que passariam a ter com ele, sem perder em nada sua antiga benevolência e ternura, já tão bem conhecidas. Procuraremos aqui extrair desse relato alguns pontos que podem esclarecer quem é este Cristo de hoje.

Aquele que encontrou os dois discípulos no caminho para Emaús é o mesmo que nos acompanha hoje em nossa caminhada na Terra. É uma Presença permanente, um Amigo sempre presente, e sua voz suave se faz ouvir de geração em geração: "E eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos" (Mt 28.20). Tudo tão simples e tão natural quanto o cair da noite enquanto conversavam, assim ele continua ao nosso lado, através de todos os caminhos e veredas da vida.

Há um novo elemento em sua humanidade, pois passou pela sepultura e ressurgiu transformada, transfigurada e glorificada. Como disse o apóstolo Paulo, "ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já o não conhecemos desse modo" (2 Co 5.16).

Quando Maria caiu a seus pés e tentou segurá-lo no seu relacionamento antigo, Jesus ternamente a advertiu: "Não me detenhas; ...subo para meu Pai e vosso Pai" (Jo 20.17). Em breve ela teria um encontro mais elevado e o conheceria em um novo plano de manifestação espiritual e comunhão.

Os discípulos nem o reconheceram a princípio. Quantas vezes ele está conosco sem que o percebamos, e só quando sua presença já se afastou é que nos lembramos de como ardia nosso coração e bradamos com alegria: "Era o Senhor!". Quantas provisões divinas, quantas respostas de oração, quantos toques de compaixão humana o trazem para perto de nós, pois é quando nos sentimos mais sozinhos que ele está mais próximo.

O Cristo que conhece cada uma de nossas circunstâncias e condições ajusta-se à nossa vida. Ele entrou com a maior naturalidade na conversa dos discípulos de Emaús. Notou que estavam tristes, tomou o fio da conversa e transformou-a em uma maravilhosa mensagem de bênção. Assim ele vem a nós, exatamente no lugar em que nos encontramos. Não precisamos ascender a elevados pináculos espirituais para trazer o Senhor Jesus até nós. Não há circunstância alguma em que ele não possa misturar-se e trazer seu amável companheirismo.

Ele nos fala através de sua Palavra: "E começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras" (Lc 24.27). E hoje, da mesma forma, ele vem até nós pela sua Palavra. Se conhecêssemos mais as Escrituras, se as estudássemos com mais afinco, veríamos que Cristo está sempre pronto a nos encontrar em suas páginas e ouviríamos suas grandes e ricas promessas. "O testemunho de Jesus é o espírito da profecia" (Ap 19.10). Será que já aprendemos a reconhecer sua face em cada página e sua voz em cada promessa?

Ele faz nossos corações arderem quando abre para nós as páginas das Escrituras. Sua Palavra não é meramente luz intelectual, mas vida espiritual e fogo dos céus. Os olhos do nosso coração precisam estar mais iluminados que as nossas faculdades de compreensão. Pouco adianta ler a Bíblia como uma mera tarefa ou estudo. Precisamos lê-la com o coração em chamas e com amor ardoroso, como sua carta de amor para nós e como o espelho de sua face.

Intimidade Ainda Maior

Mas o Senhor quer uma intimidade conosco ainda maior que a revelação de sua Palavra. Ele anseia por revelar-se ao coração amoroso por meio de uma visitação e manifestação pessoal. Foi assim com os discípulos quando, ao chegarem a Emaús, ele permitiu que o constrangessem a entrar em sua casa.

Há um elemento de intensa humanidade e divertida dramaticidade na declaração de que "fez como quem ia para mais longe" (Lc 24.28). Esse gesto foi somente porque queria ser pressionado. Jamais ficaria como um hóspede indesejado. Queria uma demonstração do seu amor insistente; que o constrangessem a ficar.

Ele jamais invadirá nossas vidas ou nos forçará a abrir nossa porta. "Eis que estou à porta e bato", ele clama. "Se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei, e ele comigo" (Ap 3.20). Por essa razão, ele às vezes retém a resposta à nossa oração e não nos revela sua face, a fim de que nosso desejo aumente e nosso apelo chegue com mais insistência amorosa ao seu coração.

Mas como ele sente alegria em responder quando percebe que é bem-vindo!

Veja como foi comovente o convite dos discípulos de Emaús: "Fica conosco, porque é tarde e o dia já declina" (Lc 24.29). Como esse apelo amoroso tem soado através dos séculos como o clamor de corações saudosos e solitários ansiando pela presença do Salvador! Quantas vezes desde então essa oração subiu até ele das almas solitárias, entristecidas, oprimidas e abatidas! E nunca subiu em vão ao seu coração amoroso. Tal como na natureza as correntes quentes da atmosfera fluem com ímpeto para preencher o vácuo, assim também o coração faminto e vazio sempre encontrará por perto o Salvador. "Pois dessedentou a alma sequiosa e fartou de bens a alma faminta" (Sl 107.9).

Em toda experiência cristã existe uma realidade que corresponde à cena de Emaús. O Senhor Jesus de fato vem e torna-se real para a alma amorosa e ansiosa. "Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada" (Jo 14.23).

Quando ele entrou naquela casa em Emaús, não era mais o acanhado e disfarçado estranho, mas imediatamente tomou seu lugar e deu-se a conhecer. Sentando-se à cabeceira, tomou o pão, abençoou-o e o partiu. E quando eles o tomaram, "...abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram". O antigo sorriso de reconhecimento não deixava dúvida. Era o seu abençoado Senhor, seu precioso Cristo, e seus corações se encheram de alegria, uma alegria tão profunda que ele precisou retirar a visão e desaparecer de suas vistas.

"Mas ele desapareceu da presença deles." Isso tem um profundo significado. Tivesse ele ficado por mais tempo, todo o significado de sua nova forma de relacionamento teria sido mal compreendido. Doravante, seria por fé e não por vista. Houve um momento de visão e de memória visual, mas agora teriam de levantar-se e caminhar somente pela fé, prosseguindo sempre pela simples base de uma vida de confiança.

Nada mais nocivo que estar sempre em busca de sensações espirituais e alegria emocional. A atmosfera e a atitude normal do cristão é a confiança e a comunhão pela oração. "Porque andamos por fé e não por vista" (2 Co 5.7). Como demoraram a aprender essa lição! Noutra ocasião, o cético Tomé chegou mesmo a exigir uma prova exterior da presença do Mestre, e o Senhor o repreendeu, mesmo concedendo o que pedira: "Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram" (Jo 20.29).

Não percamos a bênção, mas, ao mesmo tempo, procuremos aprender a depender de sua Palavra e a contar com sua presença invisível, testificando junto com o salmista, com fé inabalável: "Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei" (Sl 16.8).

O irmão Lawrence escreveu um livro muito útil, A Prática da Presença de Deus, mostrando um exercício espiritual que podemos usar com grande proveito. Um outro servo de Deus nos conta como toda manhã senta-se em sua biblioteca e coloca uma cadeira para o Mestre ao seu lado, e, juntos, durante todo o seu tempo de estudo, eles conversam, oram e planejam o trabalho do dia. Quando ele sai para seus afazeres, tem consciência, não de uma visão de êxtase ou de alguma revelação sobrenatural, mas de uma atmosfera iluminada, perfumada pelo sopro do céu e de um coração iluminado pela presença e amizade do Senhor.

Saiamos também em nosso caminhar diário andando junto com ele até que nossos olhos se abram e vejamos sua face e estejamos com ele na glória.
Com permissão de Alliance Life, publicação oficial da Aliança Cristã e Missionária

Fonte: Arauto Ano 23 nº 6 - Novembro/Dezembro 2005

Imagem: Wikipedia

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