Pesquise em mais de 1800 postagens!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Redescobrindo o Evangelho da Reconciliação - Antoine Rutayisir

Mais documento do Congresso Lausanne III. Ele participa do Tema Mundo Dividido. 


Tem o objetivo de despertar a discussão na Internet através do Site Lausanne Conversa Global de onde extrai o presente artigo.



Em seu livro, The Wounded Healer, (O Curandeiro Ferido) Henri Nouwen fala do ministério em um mundo ferido e desajustado, habitado por uma geração cruel formada por “homens desesperados”, que são ministrados por um “curandeiro ferido”. No capítulo intitulado “Ministério de Ministro Solitário”, Nouwen escreve: “Como sua tarefa é tornar visíveis para outros os primeiros vestígios da libertação, ele precisa atar cuidadosamente suas próprias feridas, antecipando o momento em que precisarão dele. Ele é chamado para ser o curandeiro ferido, o único que deve cuidar de suas próprias feridas, mas, ao mesmo tempo estar preparado para curar as feridas dos outros. Ele é, simultaneamente, o ministro ferido e o ministro da cura...”(p.82). Esta é uma descrição precisa do ministério de reconciliação da igreja. Em todas as nações onde a reconciliação se faz necessária, os “ministros curandeiros” fazem parte da população e também estão feridos. E somente quando são curados é que podem ministrar a cura a outros, partilhando com eles a experiência de uma vida curada. Isto é o que tentarei fazer neste documento. O conteúdo deste documento não é compreendido e apresentado sob uma perspectiva acadêmica, mas sim, extraído da experiência de 16 anos de participação ativa na cura de uma nação ferida, primeiro como cristão e pregador, e também como membro da Comissão de Reconciliação e Unidade Nacional, após o genocídio de Ruanda em 1994.



REDESCOBRINDO O EVANGELHO DA RECONCILIAÇÃO



REDESCOBRINDO O EVANGELHO DA RECONCILIAÇÃO
Autor: Antoine Rutayisire
Palavras chave: Reconciliação, feridos, ferida, ministério, ministro, dividido, Ruanda, reavivamento,
Hutu, Tutsi, espiritualidade, divisões, genocídio, cura, alienação, perdoar, identidade, unidade
Observação do Editor: Este Documento Avançado Cape Town 2010 foi escrito por Antoine Rutayisire
com o objetivo de oferecer um panorama do tema a ser discutido na sessão Plenária Matutina intitulada
“Edificando a Paz de Cristo em Nosso Mundo Ferido e Dividido”. Os comentários sobre este documento
feitos através da Conversa Lausanne Global serão enviados ao autor e a outras pessoas para que se
chegue ao formato final a ser apresentado no Congresso
Em seu livro, The Wounded Healer, (O Curandeiro Ferido) Henri Nouwen fala do ministério em
um mundo ferido e desajustado, habitado por uma geração cruel formada por “homens
desesperados”, que são ministrados por um “curandeiro ferido”. No capítulo intitulado
“Ministério de Ministro Solitário”, Nouwen escreve: “Como sua tarefa é tornar visíveis para
outros os primeiros vestígios da libertação, ele precisa atar cuidadosamente suas próprias
feridas, antecipando o momento em que precisarão dele. Ele é chamado para ser o curandeiro
ferido, o único que deve cuidar de suas próprias feridas, mas, ao mesmo tempo estar
preparado para curar as feridas dos outros. Ele é, simultaneamente, o ministro ferido e o
ministro da cura...” (p.82). Esta é uma descrição precisa do ministério de reconciliação da igreja.
Em todas as nações onde a reconciliação se faz necessária, os “ministros curandeiros” fazem
parte da população e também estão feridos. E somente quando são curados é que podem
ministrar a cura a outros, partilhando com eles a experiência de uma vida curada. Isto é o que
tentarei fazer neste documento. O conteúdo deste documento não é compreendido e
apresentado sob uma perspectiva acadêmica, mas sim, extraído da experiência de 16 anos de
participação ativa na cura de uma nação ferida, primeiro como cristão e pregador, e também
como membro da Comissão de Reconciliação e Unidade Nacional, após o genocídio de Ruanda
em 1994.
Contradições no Contexto Cristão: Igrejas que Florescem e Feridas Infectadas
Muitos escritores cristãos de hoje concordam que o epicentro do cristianismo mudou-se para o
hemisfério sul. Mas, como reconciliamos tal fenômeno com a contradição das guerras tribais,
os conflitos étnicos e os genocídios? Como reconciliamos a alegria do crescimento rápido das
igrejas com o pior momento de matança e guerra internas? A maioria dos países que possuem
a presença cristã dominante na África está profundamente ferida. E mesmo quando os países
parecem normais, a cura é superficial, infectada de feridas sob um vulcão prestes a explodir.
Tentamos encobrir, mas as circunstâncias da vida continuam mostrando que não estamos
curados. Temos igreja que estão crescendo, mas também temos as piores guerras e até o
© The Lausanne Movement 2010
genocídio. Como podemos ser cristãos e ainda viver com ódio e ira? Como podemos ser cristãos
e viver com a escravidão, o apartheid, o ódio étnico e racial, o desajuste familiar e o divórcio? O
que deu errado com nossa evangelização e com o discipulado cristão? O que podemos fazer
para nos tornar “embaixadores da reconciliação”? O apelo deste documento é por uma
redescoberta do “Evangelho da reconciliação”.
Fracasso e sucesso: Ruanda como um case de estudo
O censo populacional de 1991 mostrou que Ruanda era 89% cristã, com uma grande proporção
de católicos romanos, (62%), seguidos pelas denominações protestantes (27%), com 8% de
tradicionalistas e alguns muçulmanos (1,5%) e de outras religiões (0,5%). Os Pais Brancos, os
primeiros missionários católicos a chegar a Ruanda, vieram com a missão específica de criar
“um Reino cristão no coração da África”, um sonho há muito acalentado por seu fundador, o
Cardeal Lavigerie. O cristianismo chegou a Ruanda em 1901. Por volta de 1941, o rei de Ruanda
foi batizado. Todos os chefes e personalidades influentes o seguiram, tornando Ruanda a
epítome de um sonho realizado. Os missionários protestantes também obtiveram sucesso
apesar da pedra de tropeço que foi a oposição cruel dos missionários católicos, que queriam
para si o maior pedaço do bolo. No início da década de 1930, um poderoso reavivamento
aconteceu na missão anglicana de Gahini, incendiando a África oriental e indo além. Uganda,
Tanzânia, Quênia, Burundi e outros países ainda celebram o fruto daquele poderoso
reavivamento. O hino “Tukutendereze” ainda é cantado com um êxtase nostálgico.
Mas, entre 1959 e 1963 o berço do reavivamento foi abalado por um sangrento massacre
étnico que levou muitos Tutsis ao exílio. Os caminhos trilhados pelos missionários e pelas
equipes de reavivamento eram agora pisados por refugiados em busca da sobrevivência.
Embora a igreja continuasse a crescer e andasse de mãos dadas com o governo, as políticas
discriminatórias foram criadas e até consentidas pelas igrejas. Entre 1990 e 1994, as tensões
étnicas cresceram visivelmente e vieram a culminar no genocídio de 1994 contra os Tutsis onde
mais de 1.000.000 de pessoas foram brutalmente massacradas – muitas vezes dentro das
igrejas e, em muitos casos, com a participação de membros do clero. O que deu errado com
nosso cristianismo?
Uma Autópsia do Fracasso da Igreja
Há muitas razões que podem explicar a situação, mas vamos nos ater as mais óbvias, antes
de extrairmos lições para o futuro.
O conteúdo da mensagem: um evangelho parcial e seletivo
Está muito claro que a mensagem que foi apresentada não era contextualizada para
corresponder às necessidades e aos problemas da nação. Quando os missionários chegaram,
encontraram uma nação unificada com três grupos: Hutus, Tutsis e Twas, e o poder estava nas
mãos da monarquia Tutsi. Esses grupos eram mais classes sociais do que grupos étnicos. Mas já
© The Lausanne Movement 2010
havia em seus relacionamentos, algumas sementes dos futuros males – tais como as
desigualdades na distribuição de poder, os estereótipos sociais negativos, o desprezo pelo
pobre e outros males da sociedade. Em vez de corrigir as injustiças e as imparcialidades sociais
negativas, os missionários e as autoridades coloniais firmaram-se nelas, favorecendo os Tutsis
em detrimento dos outros dois grupos. O evangelho que foi apresentado nunca abordou estes
problemas sociais para corrigi-los. Em alguns casos, pistas do que poderia ter sido feito eram
visíveis durante o reavivamento, quando as pessoas se arrependeram do desprezo e da falta de
amor entre os diferentes grupos étnicos e até entre os missionários e a população local.
Os métodos de apresentação: intellectual X experiencial
A espiritualidade Africana em geral e a espiritualidade de Ruanda em particular é experiencial,
sempre relacionada à vida pessoal, familiar ou nacional. Na espiritualidade africana, tudo está
relacionado; os mortos e os vivos, o reino animal e o reino inanimado. O mundo é um. Não é
dicotomizado entre o material, físico e visível e o espiritual e invisível. A forma como o
cristianismo foi apresentado não levou em consideração aquela realidade. Foi uma
apresentação intelectual, com memorização de versículos e catecismo, mas, na maior parte do
tempo sem qualquer relação com a realidade diária. Como resultado, muitas pessoas voltaram-
se para o cristianismo, mas continuaram a procurar na religião ancestral, as respostas para os
seus problemas rotineiros, confiando em suas percepções tradicionais para definir suas
identidades étnicas, raciais e tribais e seus relacionamentos. Não surpreende, portanto, que em
tempos de conflito, as pessoas não confiem em sua fé cristã, mas sim no que “seus pais lhes
ensinaram.”
O problema dos mensageiros: falam de amor e semeiam divisões
Os próprios mensageiros não foram bons modelos de relacionamento. Quando os alemães
perderam a Primeira Guerra Mundial, os missionários luteranos em Ruanda foram perseguidos
pelos missionários católicos que continuavam a impedir o avanço de outras denominações
cristãs no país. Isso criou ainda mais divisões e animosidades entre as pessoas que não viam o
cristianismo como um fator unificador e sim como outra importação colonial. E hoje? As coisas
mudaram? Nossas igrejas e denominações são modelo de relacionamento fraterno? Não
estamos, na realidade, exacerbando as divisões?
O relacionamento entre a igreja e a política
Desde o período colonial, a igreja de Ruanda, principalmente a igreja católica romana,
caminhou de mãos dadas com a liderança política, com frequência influenciando suas decisões.
Isto os impediu de mater uma distância crítica para levantar uma voz profética. A situação de
hoje é diferente? Não estamos concordando com os governos baseados em nossas inclinações
raciais, étnicas, e tribais no lugar da verdade?
Redescobrindo o Evangelho da Reconciliação
© The Lausanne Movement 2010
Depois do genocídio de 1994, a igreja foi coberta de vergonha e sentou-se no banco dos réus
para responder às muitas perguntas que lhe eram feitas. Como algo assim pode acontecer em
um país com quase 90% de cristãos? O cristianismo tornou-se uma prática obsoleta pronta para
ser extinta? O fato incrível é que, apesar das perguntas, o cristianismo ainda está crescendo em
Ruanda. Apenas oito anos após o genocídio, o censo populacional de 2002 mostrou que os
cristãos representavam 94%, os muçulmanos haviam crescido apenas 1,8%, e as outras religiões
partilhavam os 4% restantes. E a pergunta hoje é: alguma coisa mudou? Sim e não! “Sim”,
porque agora sabemos a mensagem que devemos pregar para curar as feridas de nossas
nações. E “Não”, porque não há muitas pessoas pregando esta mensagem, e aqueles que a
pregam não o fazem com intencionalidade – ou seja, pregar até que a transformação seja
percebida! Alguns aspectos da mensagem de cura que temos que reintroduzir incluem:
1. Uma nova perspectiva do pecado e da alienação: Gênesis 3
As divisões resultam do pecado! Quando o pecado entrou no mundo, trouxe 4 níveis de
alienação:
(a) Alienação de Deus: problemas espirituais
(b) Alienação de si mesmo: problemas psicológicos
(c) Alienação do outro: problemas sociais
(d) Alienação da natureza: problemas ecológicos
Um evangelho completo e pleno será aquele que analisar continuamente estes 4 níveis
de alienação e trouxer uma mensagem relevante até que a transformação aconteça.
2. Uma nova perspectiva na pregação do Cristo crucificado: Isaías 53:4-6
(a) Cristo, que carregou nossa dor. Geralmente pregamos sobre Cristo que
carregou o nosso pecado, para chamar as pessoas ao arrependimento, mas
raramente chamamos as pessoas para aliviarem suas dores, frustrações,
ira, ódio e amargura na cruz. Esta é a mensagem que os feridos devem
ouvir para que sejam curados. Somente quando as pessoas são curadas é
que podem perdoar.
(b) Cristo, que carregou o nosso pecado. Isto é frequentemente pregado, mas
sem que se toque nos temas dos culpados e ofensores. Quando pregada de
maneira pertinente, esta mensagem leva o agressor a confessar e
arrepender-se, facilitando sua integração.
(c) Cristo, nosso reconciliador: Efésios 2:11-22. Somente quando o ofensor
confessa e pede perdão, e quando o ofendido foi curado e está pronto para
perdoar, é que acontece a verdadeira reconciliação. E a cruz de Jesus Cristo
é o lugar ideal para tal acontecimento.
3. Uma nova perspectiva da nossa identidade: 2 Co.5:17
© The Lausanne Movement 2010
Ajudar as pessoas a explorar as suas raízes e ver as influências que as
tornaram o que são – os legados de sua condição humana, de seu
continente, país, de sua região e família de origem, assim como de seus
problemas pessoais – oferece uma nova perspectiva à identidade de alguém.
São nossas antigas raízes de amargura que produzem o amargo fruto da
carne (Gl. 5:19-21). Mas, quando somos enxertados em Cristo, tornamo-nos
uma nova criatura e produzimos o fruto do Espírito (Gl.5:22).
4. Uma nova perspectiva da missão da igreja: 2 Co.5: 18
Assim que igreja entender e começar a pregar esta mensagem, tornamo-nos
embaixadores da reconciliação, não apenas entre Deus e o homem, mas
também entre homem e homem. “Ele nos confiou o ministério da
reconciliação.”
5. Uma nova perspectiva de relacionamentos sociais: A Nação Santa de Deus
Divisões étnicas, raciais e de gênero são todas contra o espírito do
evangelho. Gálatas 3:26-28.
6.
Uma nova perspectiva do poder de nossa unidade: Missão e Reconciliação
Quando a igreja de Cristo amar em amor e unidade, grandes coisas acontecerão em
nossas nações.
(a) As pessoas saberão que somos discípulos de Jesus: João 13:34-35.
(b) As pessoas o aceitarão como seu Salvador: João 17:20-21.
(c) Grandes coisas acontecerão quando orarmos: Mateus 18:18-20.
“É onde o Senhor concede suas bênçãos!” Salmo 133.
Conclusão: Que lições podemos extrair da experiência em Ruanda?
1. Precisamos reexaminar a evangelização e o discipulado de nossas nações. A solução
pode ser gerada nos púlpitos das nossas igrejas. Uma boa análise das nossas
comunidades e nações permitirá desenvolver um currículo de ensinamentos dados na
igreja que conduzam à cura e à reconciliação.
2. Precisamos ser intencionais na redescoberta da mensagem da reconciliação, conforme
está contida no Evangelho, e pregá-la.
3. Precisamos aceitar nosso chamado como “ministros da reconciliação”, aceitar a culpa e
a crítica se após nossa pregação nossas comunidades permanecerem feridas e cheias de
ódio.
© The Lausanne Movement 2010
4. Em termos práticos, as igrejas em nações e comunidades feridas precisam se unir.
Precisamos ser exemplo do amor e da paz que desejamos ver nos lugares onde
ministramos. Precisamos trabalhar juntos para recuperar a mensagem e o ministério da
cura e da reconciliação.
Referências
Bourdanne, Daniel (ed.). (2002). Le Tribalisme en Afrique. Abidjan: PBA
Deyoung, Curtiss Paul. (1997). Reconciliation: Our Greatest Challenge...Our
Only Hope. Valley Forge,PA: Judson Press.
Dallaire, Romeo. (2003). Shake Hands with the Devil: the Failure of Humanity in
Rwanda. Toronto: Random House Canada.
De Lacger, Louis. (1961). Rwanda. Kabgayi.
Gourevitch, Philip. (1998). We Wish to Inform You That Tomorrow We Will Be
Killed With our Families. New York: Picador.
Guillebaud, Meg. (2002). Rwanda: The Land God Forgot? Revival, Genocide and
Hope. Oxford: Monarch Books.
Guillebaud, Meg. (2005). After the Locusts: How Costly Forgiveness is Restoring
Rwanda’s Stolen Years. Oxford: Monarch Books.
Rutayisire, Antoine. (1996). Faith Under Fire: Stories of Christian Bravery.
London: African Enterprise.
Smedes, Lewis B. (1996). The Art of Forgiving: When You Need to Forgive and
Don’t Know How. Nashville: Moorings.
Tutu, Desmond. (2000). No Future Without Forgiveness.
London: Random House.
Volf, Miroslav. (1996). Exclusion and Embrace: A Theological Exploration of
Identity, Otherness, and Reconciliation. Nashville: Abington Press.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Irmão ou amigo, faça seu comentário. Alguns comentários podem ser apagados..... Você tem liberdade de escrever o que quiser, porém, sua liberdade está condicionada ao senhorio de Jesus Cristo, às Santas Escrituras e aos objetivos do blog.