Para Que Todos Ouçam - Grant Lovejoy
Gilson Moura |
15.10.10 |
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| Grant Lovejoy http://oralitystrategies.org/ |
Tem o objetivo de despertar a discussão na Internet através do Site Lausanne Conversa Global de onde extrai o presente artigo.
Jesus sabia do valor das parábolas. Marcos afirma que Jesus usava as parábolas de acordo com Seu público e a capacidade que as pessoas tinham de entendê-las. Jesus também usava outros tipos de histórias, lições figurativas, milagres e Seus próprios exemplos para ensinar. Com estes e outros métodos, Jesus demonstrou ser um comunicador sensível ao público que O ouvia. O próprio fato de Jesus ter se tornado humano mostra a disposição de Deus de se encontrar com a humanidade no nível dela. Jesus falava uma linguagem comum, usava objetos familiares, conceitos e formas de comunicação para revelar Deus e a mensagem dEle. Jesus ensinava na medida em que Seus ouvintes podiam entender.
[+/-]
Para Que Todos Ouçam
Autora: Grant Lovejoy
Diretora de Estratégias de Oralidade, IMB
Observação do Editor: Este Documento Avançado Cape Town 2010 foi escrito por Grant
Lovejoy como um panorama do tópico a ser discutido na sessão Multiplex sobre “Como
Comunicar a Verdade para Quatro Bilhões de Aprendizes Orais”. Comentários sobre este
documento através da Conversa Global Lausanne serão enviados para a autora e outras pessoas,
para ajudar a dar forma à apresentação final que eles farão no Congresso.
Com muitas parábolas semelhantes
Jesus lhes ensinava a palavra,
tanto quanto podiam receber.
Mc. 4:33 NVI
Jesus sabia do valor das parábolas. Marcos afirma que Jesus usava as parábolas de acordo
com Seu público e a capacidade que as pessoas tinham de entendê-las. Jesus também usava
outros tipos de histórias, lições figurativas, milagres e Seus próprios exemplos para ensinar. Com
estes e outros métodos, Jesus demonstrou ser um comunicador sensível ao público que O ouvia.
O próprio fato de Jesus ter se tornado humano mostra a disposição de Deus de se encontrar com
a humanidade no nível dela. Jesus falava uma linguagem comum, usava objetos familiares,
conceitos e formas de comunicação para revelar Deus e a mensagem dEle. Jesus ensinava na
medida em que Seus ouvintes podiam entender.
Depois que Jesus voltou para o céu, pessoas comuns passaram a anunciar os Seus
ensinamentos e as histórias de Sua vida. Os seguidores de Jesus ainda estão contando as histórias
dEle para aqueles que precisam do Evangelho. Mostramos que somos iguais a Jesus quando
buscamos apresentar a verdade de Deus de uma maneira que pessoas comuns entendam. Com
esta abordagem demonstramos amor, humildade e serviço cristão.
Os métodos mais compreensíveis para apresentar a mensagem de Deus são aqueles já
conhecidos e usados há gerações. Em muitos lugares do mundo, esses métodos preferidos são as
formas de arte orais tradicionais. As artes orais consistem em histórias contadas, música e canto,
poesia, provérbios, teatro e cerimoniais. Estes métodos podem ser extremamente eficientes.
Métodos Orais Aumentam a Eficácia
Uma pesquisa recente
1
revelou que formas orais de comunicação estavam muito ligadas à
eficácia do plantio de igrejas entre os mulçumanos. Questionários e entrevistas documentaram o
impacto combinado do (1) uso da língua local em vez do idioma oficial, (2) a presença, na
equipe, de uma pessoa fluente na língua local e (3) o uso de estratégias de comunicação
escritas ou orais apropriadas, dependendo da preferência, para o aprendizado do grupo
anfitrião. Eles enfatizaram o resultado das estratégias orais: “... as equipes que
identificaram as preferências para aprendizado do seu grupo (oral ou escrito) e que
incorporaram esta preferência à estratégia de trabalho foram 340 por cento mais frutíferas
em termos de números de grupos de comunhão plantados”2.
Outros trabalhadores cristãos relataram resultados semelhantes, usando métodos orais
com grupos não-mulçumanos. O uso de estratégias orais apropriadas com aprendizes orais leva a
um entendimento e aceitação melhor do Evangelho e contribui para um discipulado melhor. Os
métodos orais são essenciais na preparação de aprendizes orais para serem líderes em suas
culturas. Por causa da crescente conscientização sobre a importância de estratégias orais, a
organização The Missions Exchange, representando cerca de 100 organizações missionárias que
dão suporte a mais de 20 mil missionários, deu o seu prêmio de Inovação em Missões em 2009
para o movimento de oralidade.
Oralidade É Confiança na Palavra Falada
Esses relatórios levantaram as perguntas: O que é oralidade? Que métodos orais
contribuem para maior frutificação?
“Oralidade” é um termo pouco conhecido. Quando eu o uso, as pessoas olham para mim
com cara de dúvida e perguntam: “Moralidade?”. Eu respondo: “Não. Oralidade”. Uma definição
simples seria: “Oralidade é a confiança maior na comunicação falada do que na escrita”. Antes
de ser inventada a escrita, todos se comunicavam através da comunicação falada; portanto,
através da oralidade. Não se lia nada, não se faziam notas, nem se pesquisava nada.
Algumas poucas culturas, pequenas e remotas, ainda não sabem nada sobre ler e escrever.
O estudioso Walter Ong chamou esses grupos de “culturas primariamente orais”, e definiu o
meio de comunicação deles como “oralidade primária”. Entretanto, hoje, a maioria das
populações do mundo sabe da existência da leitura e dos textos escritos, mesmo que não saibam
ler nem escrever.
1
“Para acompanhamento das Práticas Frutíferas, 280 praticantes de 37 nacionalidades e 57 organizações diferentes
reunidos. Eles faziam parte de equipes que tinham plantado 738 grupos de comunhão e avaliado 94 práticas,
reunidas de pesquisas com 5800 trabalhadores do campo”. J. Dudley Woodberry, ed., From Seed to Fruit: Global
Trends, Fruitful Practices, and Emerging Issues among Muslims (Tradução livre: Da Semente ao Fruto: Tendências
Globais, Práticas Frutíferas e Questões Emergentes entre os Mulçumanos) (Pasadena, CA: William Carey Library,
2008), viii.
2
Woodberry, Fruitful Practices (Tradução livre: Práticas Frutíferas), 221. Mais de 70% dos pesquisados disseram
que trabalham com culturas orais. Ver também o relatório técnico no CD complementar do livro. Pessoas que não sabem ler nem escrever dependem da palavra falada
3
. São
comunicadores orais por necessidade. Esses comunicadores orais adquirem informação, não por
meio da leitura de jornais e revistas, mas das conversas com outras pessoas, ouvindo rádio e
assistindo televisão; eles aprendem uma tarefa observando alguém executá-la. Eles não
consultam guias de usuário impressos. As comunidades que vivem primariamente com a palavra
falada são chamadas de “culturas orais”.
Algumas pessoas aprendem a ler e escrever na escola, mas não encontram prazer na
leitura. Preferem trocar histórias, cantar com seus amigos, usar provérbios para comentar eventos
atuais, recitar poesias e conversar sobre suas experiências. Elas gravitam para a comunicação
oral sempre que possível. Muitos, depois que saem da escola, não usam sua capacidade de ler, e
o resultado é que a oralidade deles fica mais acentuada. Tais pessoas são comunicadores orais
por causa da sua tradicional cultura e preferência pessoal, mesmo que tenham aprendido a ler.
Tex Samplo chamou estas pessoas de “comunicadores orais tradicionais”
4
. Ong usa o termo
“oralidade residual” para se referir a este fenômeno5
. Esta é uma situação muito comum.
Falei sobre este fenômeno em uma aula, numa universidade, na qual estava presente uma
aluna de graduação de origem africana. Um ou dois dias depois, ela foi para uma reunião de
meio de semana em sua igreja, da qual participaram aproximadamente 30 africanos. Eles eram
todos alunos universitários ou graduados. Ela fez uma pesquisa entre eles, e todos disseram que
preferem formas orais de comunicação. A resposta deles é compreensível: a cultura africana é
muito oral. Suas formas de comunicação oral são estética e relacionalmente compensadoras. Por
isso esses africanos preferem muito mais as formas orais de comunicação do que a comunicação
impressa, mesmo que sejam estudantes universitários ou graduados.
A Bíblia Antecipou a Apresentação Oral
A Bíblia surgiu em um ambiente oral. Tanto o Novo como o Velho Testamento foram
escritos quando a maioria das pessoas não sabia ler. Aparentemente, a taxa de alfabetismo
naquelas culturas bíblicas seria de 5% a 20%, dependendo da cultura e do subgrupo dentro da
cultura. Não é de surpreender que todos os povos antigos, alfabetizados ou não, preferissem a
palavra viva, que é o mesmo que dizer palavra falada
6
. As Escrituras mostram clara evidência
das suas origens orais. Por exemplo, as narrativas compõem quase metade da Bíblia, e a poesia,
outro terço7
. Isso não é surpresa, porque, as histórias e a poesia são formas tradicionais de arte
oral. Provérbios e canções também são formas orais de arte tradicionais presentes na Bíblia.
3
Os deficientes auditivos são exceção. Eles também se apoiam na comunicação não impressa, mas a escolha deles é
a linguagem dos sinais, não a fala. Como comunicadores de formas não impressas, os deficientes auditivos têm as
mesmas características culturais que a dos orais: eles preferem a comunicação frente a frente, pensamento concreto-
relacional, forte identidade de grupo, etc.
4
Tex Sample, Ministry in Oral Cultures (Tradução livre: Ministério em Culturas Orais), (Louisville:
Westminster/John Knox, 1994), cap. 1.
5
Walter J. Ong, Orality and Literacy (Tradução livre: Oralidade e Alfabetismo) (London and New York: Routledge,
1982).
6
Ben Witherington, III, New Testament Rhetoric: An Introductory Guide to the Art of Persuasion in and of the New
Testament, (Tradução livre: Retórica do Novo Testamento: Um Guia Introdutório da Arte de Persuasão do Novo
Testamento) (Eugene, OR: Cascade Books, 2009), 1.
7
Estudioso do Velho Testamento, Douglas Stuart afirma que mais de 40% do VT é narrativa, e que o VT constitui
75% da Bíblia. Portanto, a narrativa do VT é mais de 30% de toda a Bíblia. Se contarmos as narrativas de Mateus
Tanto o Velho como o Novo Testamento indicam que era costume uma pessoa ler as
Escrituras em voz alta para um grupo. Moisés instruiu os sacerdotes a lerem a lei para todo o
povo no final de cada sete anos (Dt 31:10-13; cf. Js 8:33-35). Esdras reunia o povo de Israel e lia
a lei (Ne 8:1-3). Paulo instruiu que suas cartas fossem lidas nas igrejas
8
. Parece que muitas de
suas cartas foram ditadas para um escriba
9
. Entretanto, mesmo as cartas do Novo Testamento
têm um caráter mais oral do que leitores casuais podem identificar.
Apocalipse 1:3 declara esta bem-aventurança: “feliz aquele [singular] que lê as palavras
desta profecia e felizes aqueles [plural] que ouvem e guardam o que nela está escrito”. Esta e
outras referências fazem lembrar que a maioria do povo, na época do Novo Testamento, teve
contato com a Palavra de Deus pelo ouvir, e não através da leitura. As cópias do Velho e do
Novo Testamento foram escritas à mão, por isso eram caras e inacessíveis ao povo. A prática da
leitura silenciosa da Bíblia desenvolveu-se por volta do ano 1500 da nossa era, com o advento da
imprensa de Gutenberg, o que fez com que o custo dos livros baixassem e eles ficassem mais
disponíveis.
Esta revisão histórica faz lembrar que Deus esperava que muitas pessoas ouvissem a
proclamação da Sua Palavra ao vivo, de forma audível. A Bíblia foi inspirada e escrita tendo em
vista o encontro oral. Quando as Escrituras se tornaram acessíveis na forma impressa, os cristãos
foram estimulados a aprender a lê-las regularmente por eles mesmos. Precisamos tornar as
Escrituras disponíveis onde elas não são. Neste processo, os grupos de tradução das Escrituras
deveriam ter em mente que Deus pretende que a Bíblia seja ouvida e também lida
silenciosamente para o bem do próprio leitor. Sua Palavra é para os ouvidos e para os olhos.
As histórias da vida de Jesus e Seus ensinamentos circularam na forma oral por uma
geração, até que os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João fossem escritos. Durante
aquele período testemunhas oculares contavam o que tinham visto e ouvido. O cristianismo
cresceu vertiginosamente durante este período, a igreja se espalhou pela Judeia e Galileia, por
todo o Mar Mediterrâneo e para os interiores da Ásia, África e Europa. Os novos seguidores de
Jesus vieram de várias etnias e de diferentes culturas e religiões. O Evangelho se espalhou
rapidamente durante um período em que o principal meio de comunicação era oral. Certamente,
o público que lia o Velho Testamento teve um importante papel na igreja primitiva. Talvez,
algumas testemunhas oculares tenham feito anotações das obras e palavras de Jesus, mas a
transmissão oral foi o principal meio usado para espalhar a verdade de Deus.
Crentes comuns contaram histórias que conheciam. Eles as usaram para explicar quem
era Jesus, porque eles eram Seus seguidores e porque, como seguidores de Jesus, viviam de
maneira diferente. Apesar de os judeus verem os seguidores de Jesus como “pessoas comuns e
sem instrução” (Atos 4:13), aqueles crentes foram muito eficientes. Guiados pelo Espírito de
Deus, transformados por terem “estado com Jesus”, eles foram para todos os lugares contando as
até Atos, mais da metade do NT é narrativo. Como o NT é aproximadamente 25% de toda a Bíblia, então, 13% do
total da Bíblia é narrativa do NT. Com base nesta simples estimativa, as narrativas do VT e do NT somam quase
metade das Escrituras. Se considerarmos o livro do Apocalipse como narrativa, a porcentagem pode ser maior.
8
Cl 4:16; 1 Ts 5:27; cf. 1 Tm 4:13.
9
Rm 16:22; 1 Co 16:21; Cl 4:18; 2 Ts 3:17; cf. 1 Pe 5:12. histórias que ouviram e as experiências que tiveram com Deus. Celsus, um crítico do
cristianismo do século 2, descreveu os primeiros cristãos como “trabalhadores em lã, em couro e
pisoeiros, pessoas sem instrução e de rudes”, mas ele reclamou que aquelas pessoas comuns
eram muito eficientes para convencer outras pessoas a seguirem a Cristo10
. Estes exemplos
lembram o potencial que têm os cristãos comuns para aprender, internalizar e contar histórias da
Bíblia e outras seleções como um meio de proclamar sua fé; eles podem ser tremendamente
eficientes. Mesmo não tendo formação educacional formal, ainda assim podem ter um papel
ativo na proclamação do Evangelho. Jesus não os excluiu.
Com o impulso do Movimento Lausanne na visão “toda a igreja levando todo o
Evangelho para o mundo todo”, existem algumas implicações sobre oralidade a serem
consideradas.
Implicações da Oralidade para Toda a Igreja
O crescimento do cristianismo nas últimas décadas se deu, em grande parte, entre grupos
de cultura oral, nas Américas Central e do Sul, África Sub-Saariana e Ásia. A familiaridade deles
com as tradições orais pode ser uma vantagem no processo de fazer Cristo conhecido entre os
que ainda não ouviram o Evangelho, porque a maioria dos que ainda não ouviram o Evangelho
também vive em culturas orais. Os cristãos que vêm de culturas orais fortes já entendem o valor
de comunicar histórias, músicas, provérbios e dança. Eles podem compartilhar sua experiência
com aqueles que estão iniciando sua caminhada de fé com outros meios de comunicação. Os
cristãos de culturas orais podem advogar em favor dos valores deste aprendizado no ministério,
especialmente para os aprendizes orais. Eles podem, com amor, insistir para que os processos de
preparação de líderes na igreja considerem as necessidades dos aprendizes orais.
Por outro lado, os cristãos das culturas de forma impressa e igrejas tradicionais precisam
desenvolver maior apreciação e mais habilidade no uso de várias abordagens de comunicação
oral. Parte desta transferência é atitudinal; envolve valorização de artes orais nas Escrituras e nas
culturas. Geralmente, esta transferência significa aprender de quem é habilitado nas artes orais
tradicionais de uma cultura. Em parceria com artistas orais, cristãos com tradição na Bíblia
impressa podem descobrir quais as artes orais que a cultura usa e quais são as melhores para a
verdade bíblica. O mais importante é que os cristãos de culturas impressas decidam fazer o
máximo que puderem para que ninguém fique excluído por falta de alfabetização de participar
integralmente da vida em Cristo e da Sua igreja.
Implicações da Oralidade para o Evangelho Todo
O desejo de comunicar as Escrituras com os povos orais pode nos dar uma nova visão de
partes da Bíblia que talvez tenhamos negligenciado. Se temos nos concentrado nas cartas do
Novo Testamento, podemos apreciar mais a narrativa do Velho Testamento, os Evangelhos e o
livro de Atos. Podemos aprender a encaixar os ensinamentos das epístolas do Novo Testamento
na cronologia do livro de Atos, de maneira que nosso entendimento destas duas seções da Bíblia
seja aprimorado, ao mesmo tempo em que elas se tornam mais acessíveis aos aprendizes orais.
Servir entre os comunicadores orais tradicionais pode elevar nossa apreciação pelos Salmos,
10
Origen, Origen Against Celsus, III, 55, in Ante-Nicene Fathers. Provérbios e porções poéticas da Bíblia. Se não desenvolvermos um conhecimento mais amplo e
íntimo com as Escrituras, não poderemos aprimorar nosso entendimento do Evangelho como um
todo.
Nossa preocupação com a totalidade do Evangelho tem implicações práticas referentes a
tornar o Evangelho acessível aos que nunca ouviram. Isso significa que qualquer panorama
inicial de contar histórias da Bíblia precisa ser selecionado cuidadosamente para que as histórias
incluam temas teológicos essenciais. Isso também significa que devemos procurar entender toda
cultura na qual proclamamos Cristo. Quanto mais quisermos que o Evangelho todo influencie
uma cultura, mais devemos buscar entendê-la. Caso contrário, podemos proclamar o Evangelho
com base em mal-entendidos de crenças e valores culturais.
Nosso compromisso de proclamar todo Evangelho tem implicações com a tradução da
Bíblia e com as estratégias de engajamento com as Escrituras. Em quase todos os casos, os
grupos sem a Bíblia são também aprendizes orais, cuja língua materna não tem a forma escrita.
Em cada comunidade /linguística, os crentes, dentro do seu grupo e com seus parceiros nas
organizações de tradução da Bíblia, precisam determinar a melhor maneira de tornar todo o
Evangelho acessível a eles. Esforços recentes sobre como tornar as Escrituras mais “acessíveis”
levaram alguns grupos a reconsiderar suas estratégias. Apenas finalizar a tradução e impressão
não as tornam acessíveis aos não-leitores. Uma boa estratégia de engajamento com as Escrituras
atende não-leitores e suas preferências de uso de mídia. Tecnologias avançadas trouxeram muitas
novas oportunidade para apresentar verdades bíblicas pelo rádio, gravações de áudio e vídeo.
Muitos já provaram sua tremenda eficácia no alcance de aprendizes orais. É importante prever
todas as possibilidades para juntar tecnologia e estratégias orais nos anos que estão por vir.
Quem pode questionar que estas iniciativas terão um imenso impacto?
Organizações de tradução da Bíblia começaram a dar mais atenção à oralidade de
comunidades que não têm a Bíblia. Eles começaram usando métodos de contar histórias da
Bíblia para iniciar os tradutores da língua materna nas Escrituras e dar a eles uma base geral das
Escrituras, antes de traduzir porções individuais. Eles acharam muito produtivo usar rascunhos
orais de unidades completas de narrativas das Escrituras. Este processo fortalece a naturalidade
da tradução resultante (tanto oral como impressa) e a faz mais compreensível e atraente. Testar
estas versões orais usando-as em pequenos grupos também tem-se mostrado promissor de várias
maneiras
11
. Conseguir mais das Escrituras em formatos acessíveis, que sirvam bem às
comunidades orais é a chave na proclamação de todo o Evangelho para aqueles que ainda não
ouviram sobre ele.
Implicações da Oralidade para o Mundo Todo
Levar o Evangelho para “o mundo todo” significa apresentá-lo de uma maneira
compreensível para todos: homens, mulheres e crianças. Pelo menos um bilhão de homens,
11
Essas mudanças são descritas com maiores detalhes em Grant Lovejoy, “Orality, Bible
Translation, and Scripture Engagement,” (Tradução livre: Oralidade, Tradução da Bíblia e
Engajamento com as Escrituras), Palestra Beekman apresentada em 17 de outubro de 2009 na
Conferência de Tradução da Bíblia de 2009, em Dallas, TX. mulheres e crianças são aprendizes orais por necessidade, por causa do analfabetismo ou do
analfabetismo funcional. Aproximadamente, três vezes este número são aprendizes orais por
preferência. Além disso, 71 milhões de adolescentes não estão matriculados em cursos de ensino
médio médios. (Observação: o “número de problemas de alunos fora da escola é duas vezes
maior do que o registrado” [73]). Os 902 milhões não alfabetizados precisam da verdade de Deus
na forma oral para entendê-los.
Muitos que concluem o ensino fundamental, na prática ainda são muito orais, mesmo que
as autoridades os considerem alfabetizados. A conclusão da formação educacional fundamental
ou média não garante alunos funcionalmente alfabetizados.
Milhões de crianças vêm do ensino fundamental todos os anos sem ter adquirido o
mínimo de alfabetização básica ou habilidade com números. Incapazes de formular ou ler
sentenças simples, essas crianças são mal preparadas para a transição para a escola
secundária, isso sem considerar a entrada no mercado de trabalho. Estes problema se
estendem para o ensino médio onde muitas crianças – em alguns casos, a maioria – não
alcançam nem o nível mínimo de competência (104).
Este fenômeno não se limita a algumas nações economicamente empobrecidas. “Níveis absolutos
de aprendizado são excepcionalmente baixos em muitos países” (104). O desempenho
educacional de minorias étnicas e liguísticas é geralmente pior do que as médias nacionais. Os
cristãos que buscam alcançar as minorias étnicas e linguísticas devem lembrar-se disso.
O alto índide de analfabetismo não é uma questão apenas no mundo em
desenvolvimento. Os países industrializados e afluentes também têm populações consideráveis
em estado de alfabetismo limitado. Nos Estados Unidos, por exemplo, “14% da população
[adulta] tem nível de alfabetismo baixo que os impede de cumprir tarefas do dia a dia, como
entender artigos de jornais e manuais de instrução” (96). Situações semelhantes existem em
outros países desenvolvidos.
A Pesquisa Internacional de Alfabetismo Adulto (sigla no inglês IALS – International Adult
Literacy Survey) conduzida em 22 nações e regiões, a maioria no mundo desenvolvido, testou o
alfabetismo de seus participantes. A pesquisa IALS descobriu que, na média, quase metade dos
adultos naqueles países são limitadamente alafbetizadas
12
. Esses adultos, que podem ler, mas não
leem proficientemente, compreendem uma considerável porção dos estimados três bilhões de
pessoas que preferem comunicação oral.
Não podemos contar com melhorias contínuas nos níveis globais de alfabetismo. Apesar
dos esforços globais sem precedentes desde 2000, especialistas alertam que “Existe um perigo
iminente que depois de uma década de avanços encorajadores, o progresso em direção aos
objetivos da Educação para Todos vá estagnar ou mesmo reverter, em face da crescente pobreza,
desaceleração do crescimento econômico e pressão crescente sobre orçamentos
12
Literacy in the Information Age: Final Report of the International Adult Literacy Survey
(Tradição livre: Alfabetismo na Era da Informação: Relatório Final da Pesquisa Internacional
de Alfabetismo Adulto), (Paris: OECD, 2000), 17. governamentais
13
. Aumentar o percentual do alfabetismo de um país a cada década é um grande
desafio. Adotar estratégias orais agora é mais sábio do que esperar que o mundo, em breve,
torne-se alfabetizado o suficiente para se beneficiar de estratégias existentes com material
impresso.
Conclusão
Buscamos comunicar a mensagem de Deus para que pessoas comuns possam entendê-la,
responder a ela, compartilhá-la com outras pessoas e vivê-la plenamente. Para que nosso público
aprenda melhor através de meios orais, devemos ajustar nossa comunicação com a dele.
Fidelidade ao exemplo de Jesus leva-nos a isso, e à possibilidade de aumentar os frutos no Seu
serviço. Igrejas e organizações missionárias em todo o mundo têm visto crescente eficiência nas
duas últimas décadas, à medida que experimentaram, e depois adotaram plenamente, o uso de
estratégias orais. Aqueles que foram marginalizados no cristianismo porque não eram
alfabetizados agora podem novamente participar plenamente do corpo de Cristo. CÓDIGO A OCULTAR
Autora: Grant Lovejoy
Diretora de Estratégias de Oralidade, IMB
Observação do Editor: Este Documento Avançado Cape Town 2010 foi escrito por Grant
Lovejoy como um panorama do tópico a ser discutido na sessão Multiplex sobre “Como
Comunicar a Verdade para Quatro Bilhões de Aprendizes Orais”. Comentários sobre este
documento através da Conversa Global Lausanne serão enviados para a autora e outras pessoas,
para ajudar a dar forma à apresentação final que eles farão no Congresso.
Com muitas parábolas semelhantes
Jesus lhes ensinava a palavra,
tanto quanto podiam receber.
Mc. 4:33 NVI
Jesus sabia do valor das parábolas. Marcos afirma que Jesus usava as parábolas de acordo
com Seu público e a capacidade que as pessoas tinham de entendê-las. Jesus também usava
outros tipos de histórias, lições figurativas, milagres e Seus próprios exemplos para ensinar. Com
estes e outros métodos, Jesus demonstrou ser um comunicador sensível ao público que O ouvia.
O próprio fato de Jesus ter se tornado humano mostra a disposição de Deus de se encontrar com
a humanidade no nível dela. Jesus falava uma linguagem comum, usava objetos familiares,
conceitos e formas de comunicação para revelar Deus e a mensagem dEle. Jesus ensinava na
medida em que Seus ouvintes podiam entender.
Depois que Jesus voltou para o céu, pessoas comuns passaram a anunciar os Seus
ensinamentos e as histórias de Sua vida. Os seguidores de Jesus ainda estão contando as histórias
dEle para aqueles que precisam do Evangelho. Mostramos que somos iguais a Jesus quando
buscamos apresentar a verdade de Deus de uma maneira que pessoas comuns entendam. Com
esta abordagem demonstramos amor, humildade e serviço cristão.
Os métodos mais compreensíveis para apresentar a mensagem de Deus são aqueles já
conhecidos e usados há gerações. Em muitos lugares do mundo, esses métodos preferidos são as
formas de arte orais tradicionais. As artes orais consistem em histórias contadas, música e canto,
poesia, provérbios, teatro e cerimoniais. Estes métodos podem ser extremamente eficientes.
Métodos Orais Aumentam a Eficácia
Uma pesquisa recente
1
revelou que formas orais de comunicação estavam muito ligadas à
eficácia do plantio de igrejas entre os mulçumanos. Questionários e entrevistas documentaram o
impacto combinado do (1) uso da língua local em vez do idioma oficial, (2) a presença, na
equipe, de uma pessoa fluente na língua local e (3) o uso de estratégias de comunicação
escritas ou orais apropriadas, dependendo da preferência, para o aprendizado do grupo
anfitrião. Eles enfatizaram o resultado das estratégias orais: “... as equipes que
identificaram as preferências para aprendizado do seu grupo (oral ou escrito) e que
incorporaram esta preferência à estratégia de trabalho foram 340 por cento mais frutíferas
em termos de números de grupos de comunhão plantados”2.
Outros trabalhadores cristãos relataram resultados semelhantes, usando métodos orais
com grupos não-mulçumanos. O uso de estratégias orais apropriadas com aprendizes orais leva a
um entendimento e aceitação melhor do Evangelho e contribui para um discipulado melhor. Os
métodos orais são essenciais na preparação de aprendizes orais para serem líderes em suas
culturas. Por causa da crescente conscientização sobre a importância de estratégias orais, a
organização The Missions Exchange, representando cerca de 100 organizações missionárias que
dão suporte a mais de 20 mil missionários, deu o seu prêmio de Inovação em Missões em 2009
para o movimento de oralidade.
Oralidade É Confiança na Palavra Falada
Esses relatórios levantaram as perguntas: O que é oralidade? Que métodos orais
contribuem para maior frutificação?
“Oralidade” é um termo pouco conhecido. Quando eu o uso, as pessoas olham para mim
com cara de dúvida e perguntam: “Moralidade?”. Eu respondo: “Não. Oralidade”. Uma definição
simples seria: “Oralidade é a confiança maior na comunicação falada do que na escrita”. Antes
de ser inventada a escrita, todos se comunicavam através da comunicação falada; portanto,
através da oralidade. Não se lia nada, não se faziam notas, nem se pesquisava nada.
Algumas poucas culturas, pequenas e remotas, ainda não sabem nada sobre ler e escrever.
O estudioso Walter Ong chamou esses grupos de “culturas primariamente orais”, e definiu o
meio de comunicação deles como “oralidade primária”. Entretanto, hoje, a maioria das
populações do mundo sabe da existência da leitura e dos textos escritos, mesmo que não saibam
ler nem escrever.
1
“Para acompanhamento das Práticas Frutíferas, 280 praticantes de 37 nacionalidades e 57 organizações diferentes
reunidos. Eles faziam parte de equipes que tinham plantado 738 grupos de comunhão e avaliado 94 práticas,
reunidas de pesquisas com 5800 trabalhadores do campo”. J. Dudley Woodberry, ed., From Seed to Fruit: Global
Trends, Fruitful Practices, and Emerging Issues among Muslims (Tradução livre: Da Semente ao Fruto: Tendências
Globais, Práticas Frutíferas e Questões Emergentes entre os Mulçumanos) (Pasadena, CA: William Carey Library,
2008), viii.
2
Woodberry, Fruitful Practices (Tradução livre: Práticas Frutíferas), 221. Mais de 70% dos pesquisados disseram
que trabalham com culturas orais. Ver também o relatório técnico no CD complementar do livro. Pessoas que não sabem ler nem escrever dependem da palavra falada
3
. São
comunicadores orais por necessidade. Esses comunicadores orais adquirem informação, não por
meio da leitura de jornais e revistas, mas das conversas com outras pessoas, ouvindo rádio e
assistindo televisão; eles aprendem uma tarefa observando alguém executá-la. Eles não
consultam guias de usuário impressos. As comunidades que vivem primariamente com a palavra
falada são chamadas de “culturas orais”.
Algumas pessoas aprendem a ler e escrever na escola, mas não encontram prazer na
leitura. Preferem trocar histórias, cantar com seus amigos, usar provérbios para comentar eventos
atuais, recitar poesias e conversar sobre suas experiências. Elas gravitam para a comunicação
oral sempre que possível. Muitos, depois que saem da escola, não usam sua capacidade de ler, e
o resultado é que a oralidade deles fica mais acentuada. Tais pessoas são comunicadores orais
por causa da sua tradicional cultura e preferência pessoal, mesmo que tenham aprendido a ler.
Tex Samplo chamou estas pessoas de “comunicadores orais tradicionais”
4
. Ong usa o termo
“oralidade residual” para se referir a este fenômeno5
. Esta é uma situação muito comum.
Falei sobre este fenômeno em uma aula, numa universidade, na qual estava presente uma
aluna de graduação de origem africana. Um ou dois dias depois, ela foi para uma reunião de
meio de semana em sua igreja, da qual participaram aproximadamente 30 africanos. Eles eram
todos alunos universitários ou graduados. Ela fez uma pesquisa entre eles, e todos disseram que
preferem formas orais de comunicação. A resposta deles é compreensível: a cultura africana é
muito oral. Suas formas de comunicação oral são estética e relacionalmente compensadoras. Por
isso esses africanos preferem muito mais as formas orais de comunicação do que a comunicação
impressa, mesmo que sejam estudantes universitários ou graduados.
A Bíblia Antecipou a Apresentação Oral
A Bíblia surgiu em um ambiente oral. Tanto o Novo como o Velho Testamento foram
escritos quando a maioria das pessoas não sabia ler. Aparentemente, a taxa de alfabetismo
naquelas culturas bíblicas seria de 5% a 20%, dependendo da cultura e do subgrupo dentro da
cultura. Não é de surpreender que todos os povos antigos, alfabetizados ou não, preferissem a
palavra viva, que é o mesmo que dizer palavra falada
6
. As Escrituras mostram clara evidência
das suas origens orais. Por exemplo, as narrativas compõem quase metade da Bíblia, e a poesia,
outro terço7
. Isso não é surpresa, porque, as histórias e a poesia são formas tradicionais de arte
oral. Provérbios e canções também são formas orais de arte tradicionais presentes na Bíblia.
3
Os deficientes auditivos são exceção. Eles também se apoiam na comunicação não impressa, mas a escolha deles é
a linguagem dos sinais, não a fala. Como comunicadores de formas não impressas, os deficientes auditivos têm as
mesmas características culturais que a dos orais: eles preferem a comunicação frente a frente, pensamento concreto-
relacional, forte identidade de grupo, etc.
4
Tex Sample, Ministry in Oral Cultures (Tradução livre: Ministério em Culturas Orais), (Louisville:
Westminster/John Knox, 1994), cap. 1.
5
Walter J. Ong, Orality and Literacy (Tradução livre: Oralidade e Alfabetismo) (London and New York: Routledge,
1982).
6
Ben Witherington, III, New Testament Rhetoric: An Introductory Guide to the Art of Persuasion in and of the New
Testament, (Tradução livre: Retórica do Novo Testamento: Um Guia Introdutório da Arte de Persuasão do Novo
Testamento) (Eugene, OR: Cascade Books, 2009), 1.
7
Estudioso do Velho Testamento, Douglas Stuart afirma que mais de 40% do VT é narrativa, e que o VT constitui
75% da Bíblia. Portanto, a narrativa do VT é mais de 30% de toda a Bíblia. Se contarmos as narrativas de Mateus
Tanto o Velho como o Novo Testamento indicam que era costume uma pessoa ler as
Escrituras em voz alta para um grupo. Moisés instruiu os sacerdotes a lerem a lei para todo o
povo no final de cada sete anos (Dt 31:10-13; cf. Js 8:33-35). Esdras reunia o povo de Israel e lia
a lei (Ne 8:1-3). Paulo instruiu que suas cartas fossem lidas nas igrejas
8
. Parece que muitas de
suas cartas foram ditadas para um escriba
9
. Entretanto, mesmo as cartas do Novo Testamento
têm um caráter mais oral do que leitores casuais podem identificar.
Apocalipse 1:3 declara esta bem-aventurança: “feliz aquele [singular] que lê as palavras
desta profecia e felizes aqueles [plural] que ouvem e guardam o que nela está escrito”. Esta e
outras referências fazem lembrar que a maioria do povo, na época do Novo Testamento, teve
contato com a Palavra de Deus pelo ouvir, e não através da leitura. As cópias do Velho e do
Novo Testamento foram escritas à mão, por isso eram caras e inacessíveis ao povo. A prática da
leitura silenciosa da Bíblia desenvolveu-se por volta do ano 1500 da nossa era, com o advento da
imprensa de Gutenberg, o que fez com que o custo dos livros baixassem e eles ficassem mais
disponíveis.
Esta revisão histórica faz lembrar que Deus esperava que muitas pessoas ouvissem a
proclamação da Sua Palavra ao vivo, de forma audível. A Bíblia foi inspirada e escrita tendo em
vista o encontro oral. Quando as Escrituras se tornaram acessíveis na forma impressa, os cristãos
foram estimulados a aprender a lê-las regularmente por eles mesmos. Precisamos tornar as
Escrituras disponíveis onde elas não são. Neste processo, os grupos de tradução das Escrituras
deveriam ter em mente que Deus pretende que a Bíblia seja ouvida e também lida
silenciosamente para o bem do próprio leitor. Sua Palavra é para os ouvidos e para os olhos.
As histórias da vida de Jesus e Seus ensinamentos circularam na forma oral por uma
geração, até que os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João fossem escritos. Durante
aquele período testemunhas oculares contavam o que tinham visto e ouvido. O cristianismo
cresceu vertiginosamente durante este período, a igreja se espalhou pela Judeia e Galileia, por
todo o Mar Mediterrâneo e para os interiores da Ásia, África e Europa. Os novos seguidores de
Jesus vieram de várias etnias e de diferentes culturas e religiões. O Evangelho se espalhou
rapidamente durante um período em que o principal meio de comunicação era oral. Certamente,
o público que lia o Velho Testamento teve um importante papel na igreja primitiva. Talvez,
algumas testemunhas oculares tenham feito anotações das obras e palavras de Jesus, mas a
transmissão oral foi o principal meio usado para espalhar a verdade de Deus.
Crentes comuns contaram histórias que conheciam. Eles as usaram para explicar quem
era Jesus, porque eles eram Seus seguidores e porque, como seguidores de Jesus, viviam de
maneira diferente. Apesar de os judeus verem os seguidores de Jesus como “pessoas comuns e
sem instrução” (Atos 4:13), aqueles crentes foram muito eficientes. Guiados pelo Espírito de
Deus, transformados por terem “estado com Jesus”, eles foram para todos os lugares contando as
até Atos, mais da metade do NT é narrativo. Como o NT é aproximadamente 25% de toda a Bíblia, então, 13% do
total da Bíblia é narrativa do NT. Com base nesta simples estimativa, as narrativas do VT e do NT somam quase
metade das Escrituras. Se considerarmos o livro do Apocalipse como narrativa, a porcentagem pode ser maior.
8
Cl 4:16; 1 Ts 5:27; cf. 1 Tm 4:13.
9
Rm 16:22; 1 Co 16:21; Cl 4:18; 2 Ts 3:17; cf. 1 Pe 5:12. histórias que ouviram e as experiências que tiveram com Deus. Celsus, um crítico do
cristianismo do século 2, descreveu os primeiros cristãos como “trabalhadores em lã, em couro e
pisoeiros, pessoas sem instrução e de rudes”, mas ele reclamou que aquelas pessoas comuns
eram muito eficientes para convencer outras pessoas a seguirem a Cristo10
. Estes exemplos
lembram o potencial que têm os cristãos comuns para aprender, internalizar e contar histórias da
Bíblia e outras seleções como um meio de proclamar sua fé; eles podem ser tremendamente
eficientes. Mesmo não tendo formação educacional formal, ainda assim podem ter um papel
ativo na proclamação do Evangelho. Jesus não os excluiu.
Com o impulso do Movimento Lausanne na visão “toda a igreja levando todo o
Evangelho para o mundo todo”, existem algumas implicações sobre oralidade a serem
consideradas.
Implicações da Oralidade para Toda a Igreja
O crescimento do cristianismo nas últimas décadas se deu, em grande parte, entre grupos
de cultura oral, nas Américas Central e do Sul, África Sub-Saariana e Ásia. A familiaridade deles
com as tradições orais pode ser uma vantagem no processo de fazer Cristo conhecido entre os
que ainda não ouviram o Evangelho, porque a maioria dos que ainda não ouviram o Evangelho
também vive em culturas orais. Os cristãos que vêm de culturas orais fortes já entendem o valor
de comunicar histórias, músicas, provérbios e dança. Eles podem compartilhar sua experiência
com aqueles que estão iniciando sua caminhada de fé com outros meios de comunicação. Os
cristãos de culturas orais podem advogar em favor dos valores deste aprendizado no ministério,
especialmente para os aprendizes orais. Eles podem, com amor, insistir para que os processos de
preparação de líderes na igreja considerem as necessidades dos aprendizes orais.
Por outro lado, os cristãos das culturas de forma impressa e igrejas tradicionais precisam
desenvolver maior apreciação e mais habilidade no uso de várias abordagens de comunicação
oral. Parte desta transferência é atitudinal; envolve valorização de artes orais nas Escrituras e nas
culturas. Geralmente, esta transferência significa aprender de quem é habilitado nas artes orais
tradicionais de uma cultura. Em parceria com artistas orais, cristãos com tradição na Bíblia
impressa podem descobrir quais as artes orais que a cultura usa e quais são as melhores para a
verdade bíblica. O mais importante é que os cristãos de culturas impressas decidam fazer o
máximo que puderem para que ninguém fique excluído por falta de alfabetização de participar
integralmente da vida em Cristo e da Sua igreja.
Implicações da Oralidade para o Evangelho Todo
O desejo de comunicar as Escrituras com os povos orais pode nos dar uma nova visão de
partes da Bíblia que talvez tenhamos negligenciado. Se temos nos concentrado nas cartas do
Novo Testamento, podemos apreciar mais a narrativa do Velho Testamento, os Evangelhos e o
livro de Atos. Podemos aprender a encaixar os ensinamentos das epístolas do Novo Testamento
na cronologia do livro de Atos, de maneira que nosso entendimento destas duas seções da Bíblia
seja aprimorado, ao mesmo tempo em que elas se tornam mais acessíveis aos aprendizes orais.
Servir entre os comunicadores orais tradicionais pode elevar nossa apreciação pelos Salmos,
10
Origen, Origen Against Celsus, III, 55, in Ante-Nicene Fathers. Provérbios e porções poéticas da Bíblia. Se não desenvolvermos um conhecimento mais amplo e
íntimo com as Escrituras, não poderemos aprimorar nosso entendimento do Evangelho como um
todo.
Nossa preocupação com a totalidade do Evangelho tem implicações práticas referentes a
tornar o Evangelho acessível aos que nunca ouviram. Isso significa que qualquer panorama
inicial de contar histórias da Bíblia precisa ser selecionado cuidadosamente para que as histórias
incluam temas teológicos essenciais. Isso também significa que devemos procurar entender toda
cultura na qual proclamamos Cristo. Quanto mais quisermos que o Evangelho todo influencie
uma cultura, mais devemos buscar entendê-la. Caso contrário, podemos proclamar o Evangelho
com base em mal-entendidos de crenças e valores culturais.
Nosso compromisso de proclamar todo Evangelho tem implicações com a tradução da
Bíblia e com as estratégias de engajamento com as Escrituras. Em quase todos os casos, os
grupos sem a Bíblia são também aprendizes orais, cuja língua materna não tem a forma escrita.
Em cada comunidade /linguística, os crentes, dentro do seu grupo e com seus parceiros nas
organizações de tradução da Bíblia, precisam determinar a melhor maneira de tornar todo o
Evangelho acessível a eles. Esforços recentes sobre como tornar as Escrituras mais “acessíveis”
levaram alguns grupos a reconsiderar suas estratégias. Apenas finalizar a tradução e impressão
não as tornam acessíveis aos não-leitores. Uma boa estratégia de engajamento com as Escrituras
atende não-leitores e suas preferências de uso de mídia. Tecnologias avançadas trouxeram muitas
novas oportunidade para apresentar verdades bíblicas pelo rádio, gravações de áudio e vídeo.
Muitos já provaram sua tremenda eficácia no alcance de aprendizes orais. É importante prever
todas as possibilidades para juntar tecnologia e estratégias orais nos anos que estão por vir.
Quem pode questionar que estas iniciativas terão um imenso impacto?
Organizações de tradução da Bíblia começaram a dar mais atenção à oralidade de
comunidades que não têm a Bíblia. Eles começaram usando métodos de contar histórias da
Bíblia para iniciar os tradutores da língua materna nas Escrituras e dar a eles uma base geral das
Escrituras, antes de traduzir porções individuais. Eles acharam muito produtivo usar rascunhos
orais de unidades completas de narrativas das Escrituras. Este processo fortalece a naturalidade
da tradução resultante (tanto oral como impressa) e a faz mais compreensível e atraente. Testar
estas versões orais usando-as em pequenos grupos também tem-se mostrado promissor de várias
maneiras
11
. Conseguir mais das Escrituras em formatos acessíveis, que sirvam bem às
comunidades orais é a chave na proclamação de todo o Evangelho para aqueles que ainda não
ouviram sobre ele.
Implicações da Oralidade para o Mundo Todo
Levar o Evangelho para “o mundo todo” significa apresentá-lo de uma maneira
compreensível para todos: homens, mulheres e crianças. Pelo menos um bilhão de homens,
11
Essas mudanças são descritas com maiores detalhes em Grant Lovejoy, “Orality, Bible
Translation, and Scripture Engagement,” (Tradução livre: Oralidade, Tradução da Bíblia e
Engajamento com as Escrituras), Palestra Beekman apresentada em 17 de outubro de 2009 na
Conferência de Tradução da Bíblia de 2009, em Dallas, TX. mulheres e crianças são aprendizes orais por necessidade, por causa do analfabetismo ou do
analfabetismo funcional. Aproximadamente, três vezes este número são aprendizes orais por
preferência. Além disso, 71 milhões de adolescentes não estão matriculados em cursos de ensino
médio médios. (Observação: o “número de problemas de alunos fora da escola é duas vezes
maior do que o registrado” [73]). Os 902 milhões não alfabetizados precisam da verdade de Deus
na forma oral para entendê-los.
Muitos que concluem o ensino fundamental, na prática ainda são muito orais, mesmo que
as autoridades os considerem alfabetizados. A conclusão da formação educacional fundamental
ou média não garante alunos funcionalmente alfabetizados.
Milhões de crianças vêm do ensino fundamental todos os anos sem ter adquirido o
mínimo de alfabetização básica ou habilidade com números. Incapazes de formular ou ler
sentenças simples, essas crianças são mal preparadas para a transição para a escola
secundária, isso sem considerar a entrada no mercado de trabalho. Estes problema se
estendem para o ensino médio onde muitas crianças – em alguns casos, a maioria – não
alcançam nem o nível mínimo de competência (104).
Este fenômeno não se limita a algumas nações economicamente empobrecidas. “Níveis absolutos
de aprendizado são excepcionalmente baixos em muitos países” (104). O desempenho
educacional de minorias étnicas e liguísticas é geralmente pior do que as médias nacionais. Os
cristãos que buscam alcançar as minorias étnicas e linguísticas devem lembrar-se disso.
O alto índide de analfabetismo não é uma questão apenas no mundo em
desenvolvimento. Os países industrializados e afluentes também têm populações consideráveis
em estado de alfabetismo limitado. Nos Estados Unidos, por exemplo, “14% da população
[adulta] tem nível de alfabetismo baixo que os impede de cumprir tarefas do dia a dia, como
entender artigos de jornais e manuais de instrução” (96). Situações semelhantes existem em
outros países desenvolvidos.
A Pesquisa Internacional de Alfabetismo Adulto (sigla no inglês IALS – International Adult
Literacy Survey) conduzida em 22 nações e regiões, a maioria no mundo desenvolvido, testou o
alfabetismo de seus participantes. A pesquisa IALS descobriu que, na média, quase metade dos
adultos naqueles países são limitadamente alafbetizadas
12
. Esses adultos, que podem ler, mas não
leem proficientemente, compreendem uma considerável porção dos estimados três bilhões de
pessoas que preferem comunicação oral.
Não podemos contar com melhorias contínuas nos níveis globais de alfabetismo. Apesar
dos esforços globais sem precedentes desde 2000, especialistas alertam que “Existe um perigo
iminente que depois de uma década de avanços encorajadores, o progresso em direção aos
objetivos da Educação para Todos vá estagnar ou mesmo reverter, em face da crescente pobreza,
desaceleração do crescimento econômico e pressão crescente sobre orçamentos
12
Literacy in the Information Age: Final Report of the International Adult Literacy Survey
(Tradição livre: Alfabetismo na Era da Informação: Relatório Final da Pesquisa Internacional
de Alfabetismo Adulto), (Paris: OECD, 2000), 17. governamentais
13
. Aumentar o percentual do alfabetismo de um país a cada década é um grande
desafio. Adotar estratégias orais agora é mais sábio do que esperar que o mundo, em breve,
torne-se alfabetizado o suficiente para se beneficiar de estratégias existentes com material
impresso.
Conclusão
Buscamos comunicar a mensagem de Deus para que pessoas comuns possam entendê-la,
responder a ela, compartilhá-la com outras pessoas e vivê-la plenamente. Para que nosso público
aprenda melhor através de meios orais, devemos ajustar nossa comunicação com a dele.
Fidelidade ao exemplo de Jesus leva-nos a isso, e à possibilidade de aumentar os frutos no Seu
serviço. Igrejas e organizações missionárias em todo o mundo têm visto crescente eficiência nas
duas últimas décadas, à medida que experimentaram, e depois adotaram plenamente, o uso de
estratégias orais. Aqueles que foram marginalizados no cristianismo porque não eram
alfabetizados agora podem novamente participar plenamente do corpo de Cristo. CÓDIGO A OCULTAR
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No altar? Em santidade!









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