Evangelho Global, Era Global - Os Guinness
Gilson Moura |
11.10.10 |
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Mais um documento do Congresso Lausanne III. Ele participa do Tema Etnia e Identidade.
Tem o objetivo de despertar a discussão na Internet através do Site Lausanne Conversa Global de onde extrai o presente artigo.
Nunca a visão “do evangelho todo para o mundo todo através de toda a igreja” esteve tão próxima e, no entanto, esta visão nunca foi tão contestada.
A força de dois gumes da igreja
Como cristãos, e como igreja de Jesus Cristo, somos chamados por nosso Senhor para “estarmos no” mundo, mas não para “sermos do” mundo. “Não somos mais” quem éramos antes de conhecer a Cristo, e “ainda não somos” o que seremos quando Cristo voltar. Este estimulante chamado à tensão, tanto no tempo quanto no espaço, jaz no coração da nossa fé. Individual e coletivamente, devemos viver no mundo com uma postura de Sim e Não, de afirmação e antítese, “contra o mundo/a favor do mundo”.
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EVANGELHO GLOBAL, ERA GLOBAL
O discipulado cristão e a missão na era da globalização
Contato principal: Os Guinness
Autores: Os Guinness e David Wells
Observação do Editor: Este Documento Avançado de Cape Town 2010 foi escrito por Os
Guinness com o objetivo de oferecer um panorama do tema a ser discutido na sessão Multiplex
intitulada “Globalização.” Os comentários sobre este documento feitos através da Conversa
Lausanne Global serão enviados ao autor e a outras pessoas para que se chegue ao formato final
a ser apresentado no Congresso.
A “Globalização” é um desafio monumental que representa, simplesmente, a face
mais crítica do “mundo” de hoje, bem como a maior oportunidade para a missão e o maior
desafio que o discipulado de Jesus Cristo já enfrentou, desde os apóstolos do primeiro século.
Nunca a visão “do evangelho todo para o mundo todo através de toda a igreja” esteve tão
próxima e, no entanto, esta visão nunca foi tão contestada.
A força de dois gumes da igreja
Como cristãos, e como igreja de Jesus Cristo, somos chamados por nosso Senhor
para “estarmos no” mundo, mas não para “sermos do” mundo. “Não somos mais” quem éramos
antes de conhecer a Cristo, e “ainda não somos” o que seremos quando Cristo voltar. Este
estimulante chamado à tensão, tanto no tempo quanto no espaço, jaz no coração da nossa fé.
Individual e coletivamente, devemos viver no mundo com uma postura de Sim e Não, de
afirmação e antítese, “contra o mundo/a favor do mundo”.
Esta tensão é crucial à fé da igreja e à sua integridade e eficácia no mundo. Quando a
igreja de Cristo permanece fiel ao seu chamado, vive em uma tensão criativa, pré-requisito de
seu poder transformador na cultura e na história. Porque a fé cristã, sem embaraço nenhum,
certifica o mundo e tem um recorde inigualável em sua contribuição à educação, à filantropia, às
reformas sociais, à medicina, ao despertar da ciência, à emergência da democracia e dos direitos
humanos, assim como à construção de escolas, hospitais, universidades, orfanatos, 2
e outras instituições beneficentes. No entanto, ao mesmo tempo, a fé cristã também nega o
mundo, defendendo o papel de profetas assim como de pregadores, o sacrifício assim como a
realização, a importância do jejum assim como o banquete, e defendendo a exposição e oposição
ao mundo quando suas atitudes contrariam os mandamentos de Deus e os interesses da
humanidade.
Não nos surpreende, portanto, que tenha sido constante na igreja a tentação de relaxar
esta tensão de um lado ou do outro, de tal maneira que os cristãos de diferentes épocas têm, às
vezes, tantos elementos do mundo, que acabam sendo “do mundo”, e tantos elementos que não
são do mundo, que acabam tornando-se “sem utilidade para o mundo”. Em qualquer uma das
opções, tal infidelidade significa que a igreja se enfraquece, mas a infidelidade na direção do
mundanismo é pior do que a fraqueza, pois coloca a igreja, assim como Israel no Antigo
Testamento, sob a sombra do julgamento de Deus.
Este desafio leva consigo uma implicação inevitável: A fé cristã em qualquer geração
exige uma compreensão clara do mundo de seu tempo. A visão bíblica do “mundo” tem muitas
dimensões, que vão do mundo que Deus criou e ama, ao mundo que “resiste contra” o reinado de
Cristo, para o qual deveríamos ter várias respostas apropriadas. Sob um ponto de vista positivo,
compreender o mundo é algo inerente e exigido por nosso desejo de testemunhar, porque a
comunicação sempre pressupõe compreensão do contexto. Sob um ponto de vista negativo,
compreender o mundo é algo inerente e exigido pela vigilância contra os perigos do
mundanismo, pois somente podemos evitar o que compreendemos bem.
Estamos aqui reunidos na Conferência Cape Town 2010, cem anos após a grande
conferência missionária de Edimburgo, em junho de 1910. Seria verdade afirmar que a visão e a
iniciativa missionárias de Edimburgo têm sido gloriosamente justificadas e cumpridas no
emergir da igreja global durante os últimos cem anos. Mas deve-se também dizer que o ponto
cego trágico da Conferência de Edimburgo foi sua falta de autocrítica em relação a sua própria
posição no mundo, e em particular, seu fracasso em reconhecer sua escravidão às poderosas
ilusões do “Mundo Cristão” Europeu, pouco antes de seu colossal colapso nas Guerras Mundiais,
o repúdio ao imperialismo, e sua própria auto-induzida secularização. Embora hoje não sejamos
mais oniscientes do que nossas irmãs e irmãos que se reuniram em Edimburgo, devemos nos 3
empenhar em ser mais autocríticos através da compreensão do nosso mundo e de nosso lugar
nele.
Fazendo as pazes com a “globalização”
O que é, então, “o mundo” de nossos dias? Sem qualquer sombra de dúvida, a simples
e mais forte expressão da face do mundo de nosso tempo – o avançado mundo moderno do início
do século vinte e um – é a globalização, processo pelo qual a interconectividade expandiu-se a
um nível verdadeiramente global. Há muitas pessoas, como, por exemplo, os escritores da revista
The Economist, que atribuem a globalização à propagação do capitalismo de mercado em todo o
mundo, e utilizam a palavra somente como um sinônimo desta expansão. Mas isto, além de
demonstrar interesses pessoais, está errado. A globalização é um processo multidimensional e o
principal agente em sua expansão atual não é o capitalismo, por mais poderoso e importante que
seja, e sim, a tecnologia de informação. No centro da onda atual de globalização estão as “três
forças S”: speed – VELOCIDADE (a capacidade de comunicação instantânea), scope – ESCOPO
(a capacidade de comunicar-se com o mundo todo), e simultaneity – SIMULTANEIDADE (a
capacidade de comunicar-se com vários lugares ao mesmo tempo). Juntas, estas forças têm
moldado nosso “mundo conectado” e produzido um impacto triplo sem precedentes sobre a vida
humana: a aceleração, a compressão e a intensificação da vida humana na Terra em todo o
mundo global.
Considerar “sem precedentes” os níveis atuais de globalização é apropriado, mas
estes níveis devem ser qualificados imediatamente. A globalização é única na história até agora,
mas há muitos precedentes de movimento em sua direção, incluindo a expansão missionária das
grandes religiões do mundo, o impacto dos avanços nos transportes e a ampliação das redes de
contatos criadas pelo comércio, e os efeitos abrangentes das conquistas militares e imperialistas.
Da mesma forma, há grandes avanços ocorridos em outros tempos que podem ser considerados
de impacto revolucionário sobre a vida humana, tais como a invenção da escrita, do alfabeto e da
roda.
Desta forma, se analisada a partir de uma perspectiva histórica mais distante, a
avançada globalização moderna é apenas a última de uma série de ondas na expansão da
interconectividade humana. Mas, se analisada a partir de uma perspectiva mais próxima, a 4
globalização representa uma mudança importante que vai da Revolução Industrial, centrada na
produção e caracterizada pela fábrica, para a Revolução da Informação, centrada na
comunicação e caracterizada pelo computador. Nos dois casos, devemos levar em consideração
tanto a continuidade e a descontinuidade com o passado, e precisamos fazer nossas afirmações
sobre o presente com precisão e humildade.
Não é necessário dizer que a globalização propõe um desafio tanto a precisão quanto
a humildade, e que precisamos começar evitando os dois perigos opostos mas semelhantes no
qual muitos caem: a excessiva atitude “Uau!” dos líderes de torcida e o excessivo “trevas e
morte” dos rabugentos (que, em seu ponto de vista cristão, enxergam a globalização como
precursora do “fim dos tempos”). Em qualquer época, há três tarefas a serem enfrentadas pelos
cristãos que desejam lutar contra o mundo de seu tempo e viver como fiéis seguidores do
Caminho de Jesus.
A primeira tarefa é discernir, e assim, fazer uma descrição precisa das realidades do
mundo onde nos encontramos.
A segunda tarefa é avaliar, e assim, pesar os prós e os contras, o benefício e o custo
do mundo como um todo, assim como dos elementos e aspectos individuais deste mundo, todos
avaliados a partir do contexto da visão bíblica de mundo.
A terceira é envolver-se e, assim, entrar no mundo como discípulos de Jesus
chamados para ser sal e luz, usando com gratidão o que há de melhor no mundo como presentes
de Deus, e evitando diligentemente o pior deste mundo. Ou como a igreja no passado expressava,
devemos “despojar os Egípcios de seu ouro,” como o Senhor ordenou a Israel, mas nunca
edificar “um bezerro de ouro,” como Israel mais tarde foi julgado por fazer.
É fácil dizer, mas, graças à globalização, estas tarefas cristãs básicas são mais difíceis
de serem realizadas do que jamais foram. A história é sempre mais complexa do que podemos
entender, e prossegue não pela simples influência de certos fatores, mas por sua complicada
interação e através das ironias de suas conseqüências não intencionais. A globalização apenas
aumenta nossa dificuldade de compreender, porque, por sua própria natureza, ela significa que
nós, que somos finitos, hoje, temos que lidar com todo este mundo; em outras palavras, um
mundo que está sempre muito além de nossa total compreensão. E estamos lidando com o mundo 5
enquanto ele se comunica e se transforma a uma velocidade sem precedentes; em outras
palavras, um mundo que pode ter mudado antes mesmo que tenhamos terminado de descrevê-lo.
Uma segurança é lembrar que muitas de nossas melhores descrições sempre exigem
lembretes imediatos. Primeiro, a globalização quase sempre envolve duas forças que se
contrabalançam, e não simplesmente uma: se o mundo é “universal” de muitas maneiras, ele é
também “local” de muitas maneiras (o que ajudou a cunhar o estranho termo “glocal”, usado
para descrever o impacto do global sobre o local e do local sobre o global). Em segundo lugar,
em cada nova tendência sempre há vencedores e perdedores, e os cristãos que honram o seu
Mestre nunca devem perder de vista o pobre, o oprimido e os economicamente excluídos,
especialmente os que são pegos pelas desigualdades selvagens do mundo globalizado. Terceiro,
há “modernidades múltiplas”, ou diferentes formas de ser moderno, o que torna o velho adágio
“Globalização igual à Ocidentalização, igual à Americanização” não apenas um conceito errado,
mas também perigoso. Culturas diferentes, com sua própria história e seus próprios valores, são
capazes de se adaptar ao mundo moderno à sua própria maneira, e podem sempre tentar dizer
Não ao que é considerado “progresso”, e não dizer simplesmente Sim.
A fé Global por excelência
O ponto crucial e supremo de toda a discussão é que a globalização tem especial
relevância para os cristãos, porque a fé cristã é uma fé essencialmente global. Para qualquer
observador da cena global, certos fatos são evidentes e estão acima de qualquer questão: A fé
cristã é a primeira religião verdadeiramente global do mundo. Os cristãos são o grupo mais
numeroso de religiosos do mundo. A igreja cristã é a comunidade mais diversificada da Terra. A
Bíblia é o livro mais traduzido da história. E em muitas partes do mundo, a fé cristã é a que mais
cresce no mundo, especialmente quando o crescimento baseia-se na conversão, e não na taxa de
natalidade. E assim por diante.
Tais fatos não são acidentais, porque a globalização é parte integrante da fé cristã. Por
um lado, a fé cristã era global antes da criação do termo, iniciando não apenas com a Grande
Comissão a todo mundo, mas com a promessa a Abraão de que ele seria pai dos fiéis e uma
benção para todo o mundo. Por outro lado, a igreja cristã tem sido uma das maiores “portadoras”
da globalização através da história, como por exemplo, na expansão missionária da igreja do 6
primeiro século, nas missões protestantes do século dezenove e na evangelização de todo o
mundo pelas igrejas de todas as partes do mundo. O trabalho extraordinário das igrejas coreanas
é um exemplo contundente. E por outro lado ainda, as ONG (organizações não governamentais)
cristãs, tais como a Visão Mundial, Opportunity International, Compassion, Food for the Hungry
e a International Justice Mission, geralmente, são portadoras pioneiras da globalização no mundo
hoje.
Reunidos estes fatores, fica claro que, se a igreja cristã cumprir o seu chamado e
proclamar o Evangelho em sua totalidade, ela será portadora natural do Evangelho global, na era
global: “a melhor notícia de todos os tempos” para toda a humanidade. Estes são, nada menos,
que nosso privilégio e nossa responsabilidade na era global.
Principais transformações
Nosso foco principal no Congresso Lausanne na Cidade do Cabo serão as implicações
da globalização para o discipulado e para o evangelismo. Mas é crucial enfatizar que a
globalização está transformando praticamente todos os aspectos da vida humana no planeta, e
todas estas transformações têm influência sobre o discipulado e o evangelismo, de uma maneira
ou de outra. Algumas das principais transformações que exigem mais atenção estão resumidas
brevemente a seguir:
Nosso senso de tempo em um mundo de “vida acelerada”, somos a primeira geração a
viver a uma velocidade acima da compreensão humana (“negócios à velocidade da luz,” e
coisas do gênero);
Nosso senso de lugar, quando o espaço é “comprimido”, a geografia é “abolida”, e
podemos nos comunicar instantaneamente com qualquer lugar do mundo, e viajar a
qualquer lugar em 24 horas;
Nosso senso de realidade, quando a vida é cada vez mais “intermediada”; o “virtual”
substitui o natural, e os relacionamentos face a face dão passagem à interação virtual;
Nossa noção de identidade, quando o definitivo e permanente transforma-se em
“infinitamente multiforme” e numerosas “mudanças de identidade” oferecem identidades
coletivas para os que sofrem com a transformação das identidades tradicionais; 7
Nossa experiência de família, quando os laços sociais de união se “desfazem”, os
papéis tradicionais de cada sexo são desafiados e substituídos, e o disfuncional torna-se
normal;
Nossa experiência de comunidade, quando o que era face a face passa a ser “virtual e
imaginado”;
Nossa experiência de trabalho, quando a globalização torna frágil a segurança do
emprego, e as “carreiras de portfolio” tornam-se a norma;
O lugar da religião na vida moderna, quando a religião tradicional é “des-
monopolizada” e “des-territorializada”, e a religião torna-se “religiosidade” ou uma vaga
“espiritualidade”;
O desafio de outras religiões e, especialmente, de “viver com nossas mais profundas
diferenças” na emergente “praça pública global”;
O lugar da política, quando o “supranacional” sobrepõe-se ao nacional, e os estados
da nação são disputados por muitos agentes da globalização;
O desafio de trabalhar na direção de uma “autoridade global sem um governo
mundial”;
A tarefa da liderança em uma era interconectada, em que os líderes lidam
com “todo o mundo o tempo topo”;
A natureza do conhecimento, com a explosão da informação, a “generalidade”
substitui a especialização, e a Internet torna-se uma “lata de lixo” e, ao mesmo tempo,
uma “mina de ouro”;
O poder do consumismo e a transformação do desejo humano, seu apelo para
comoditizar tudo, e seu grande acúmulo de dívidas e de lixo;
A proliferação de ideologias, e especialmente das novas ideologias ferozmente pró-
globalistas, tal como o capitalismo neoliberal, ou ferozmente anti-globalistas, tal como o
“pós-colonialismo”;
A viagem na modernidade e a vasta indústria turística global, que têm gerado males
como o “turismo sexual”, a migração moderna e a “manufatura de pessoas descartáveis”
como os milhões deixados sem teto, sem identidade, sem emprego, e sem pátria em
campos de refugiados;
8
Nossas atitudes em relação ao planeta Terra, quando a degradação expõe a sua
fragilidade não renovável;
Nosso senso de gerações, quando o ritmo de vida estimula a “presunção das
gerações” e a miopia que a afasta da sabedoria dos idosos e do passado;
Nossa atitude diante da tradição e da mudança, quando a novidade e a moda
derrotam a sabedoria, os costumes e os “hábitos do coração”;
A dominância das emoções mundiais, como o medo e as fofocas desmedidas, que se
transformam em terrorismo e alarmismo;
A importância e a escala do mal, do sofrimento, do crime e da opressão globalizados,
e as múltiplas consequências para a justiça e a compaixão, e principalmente, o tráfico
global quer seja de sexo, de órgãos, e até de seres humanos;
A escalada exponencial dos efeitos colaterais globais, e de suas consequências não
intencionais, dos resultados desconhecidos e dos “cisnes negros”;
A perspectiva para a raça humana, incluindo a degradação da Terra, a destruição
potencial do planeta, a extinção da espécie humana, e a questão do “futuro pós-humano”;
Uma descrição apropriada destas transformações profundas vai muito além da
abrangência deste breve ensaio introdutório. Mas tais conseqüências nunca devem ser
esquecidas, pois elas definem o mundo onde vivemos e onde testemunhamos o nosso Senhor.
Entretanto, nosso foco, aqui está em duas áreas centrais: globalização e discipulado, e
globalização e missão.
O discipulado cristão na era global
Se a globalização tem dimensões tanto locais quanto globais, e se os seus imensos
benefícios estão atrelados a sombras extraordinárias da forma como estão, então, ela representa
desafios complexos para o discipulado cristão. Como avaliamos os benefícios e o preço como
seguidores de Cristo? E como avaliamos este mundo que vive em nossa consciência, tanto na
macro quanto na micro visão? 9
Se a Igreja for fiel ao seu chamado, pensará globalmente. Caso contrário, será mais
provinciana do que seus vizinhos não cristãos e, o que é pior, infiel ao chamado do
Evangelho.
A consciência global tende a relativizar e, consequentemente, diminuir todas as
afirmações de verdade absoluta, porque a aceitação de outras religiões e visões de mundo
mina a possibilidade de que qualquer uma delas possa ser verdadeira de fato;
O capitalismo e a tecnologia estão se unindo para produzir abundância sem paralelos
nos países desenvolvidos, levantando questionamentos para a fé cristã. Paradoxalmente,
nesses países as pessoas nunca tiveram tanto para viver e tão pouco pelo que viver; nunca
experimentaram tamanha abundância obtida através de produtos de baixo custo de
produção e, no entanto, os níveis de depressão, ansiedade e solidão nunca foram tão altos.
Com freqüência, os cristãos destes países não se distinguem dos não-cristãos na maneira
como pensam e vivem; primeiro, quanto à riqueza e depois, indo além, quanto ao
significado da vida e do que constitui uma “boa vida.” Esta conseqüência da
globalização é agora mais óbvia no Ocidente, mas se tornará um desafio onde quer que o
mundo esteja se modernizando.
Em um mundo conectado eletrônica e virtualmente, a tendência é que diminua o
relacionamento humano face a face e que aumentem os “relacionamentos virtuais” e a
rede de contatos sociais. Há um questionamento se as pessoas ainda devem “ir” à igreja.
Mas, é a “igreja” meramente uma “comunidade imaginada” que existe somente no
etéreo? E como este “mundo intermediado” impacta o discipulado moldado na realidade
de carne e sangue da Encarnação?
Numa época em que o poder do “mundo” não tem precedentes no que se refere à sua
pressão e invasão, a tendência é que expressões da fé cristã (e também de outras
religiões) sejam atraídas aos extremos de um fundamentalismo que desafia o mundo ou
de um de revisionismo liberal que se acomoda ao mundo. Se o primeiro desenvolve
caminhos de vida contraditórios ao Caminho de Jesus, o segundo leva a uma negação
descarada da histórica adoração cristã a Jesus, à promoção do que a Bíblia condena como
“outro evangelho”, e ao fim da missão cristã por completo. A fidelidade ao exemplo
contrastante entre “estar no mundo” mas não “ser do mundo” é mais vital do que nunca. 10
A Missão cristã na era global
As crescentes oportunidades para missão e evangelismo na era global são imensas e
óbvias. Os cristãos são, por definição, grandes comunicadores, e, por definição, a era global é a
grande era da comunicação; portanto, o potencial de evangelismo no mundo global dificilmente
será superestimado. Com a destruição das tradições, o colapso das certezas tradicionais e a
destruição dos papeis e das alianças tradicionais, há uma maior liberdade política, maior fluidez
social, maior diversidade religiosa e maior vulnerabilidade psicológica já vistas na história.
Como resultado, os seres humanos na era global têm sido descritos como “propensos à
conversão” e mais abertos do que nunca a considerar novas crenças. Assim sendo, nós
enfrentamos a perspectiva de proclamar o Evangelho de uma maneira “mais livre, mais rápida e
em locais mais distantes” do que em qualquer outro momento na história da igreja, uma
perspectiva que deve ser abraçada com fé e coragem.
Ao mesmo tempo, seria ingênuo não perceber que os crescentes desafios à missão e
ao evangelismo são igualmente poderosos, e devem ser encarados francamente. Os nove temas
seguintes são exemplos do tipo de desafios que devemos considerar na era global.
A tentação política: Com a crise geral da fé no mundo avançado moderno, a tentação
política hoje é diferente daquela de Edimburgo 1910, ou da igreja sob Constantino em
312 d.C. Em um extremo, mais comum no ocidente, a tentação é ver a fé cristã como a
melhor maneira de defender o status quo e de apoiar as culturas que estão sob tensão. No
outro extremo, mais frequente fora do Ocidente, a tentação é ver a fé cristã como uma
variante da crítica pós-colonial, justificando o preconceito, canalizando a ira e incitando a
amargura, na tentativa de promover a transformação social.
Em qualquer dos extremos, a história demonstra ser quase ineficaz para a cultura e
desastrosa para a igreja. E no processo, a fé cristã fica pressionada a serviço de uma ou
outra ideologia política, perdendo a característica distinta de ser o caminho de Jesus, e
terminando como o capelão da corte para os poderosos da época. Ambos extremos
precisam ser cuidadosos com a idolatria da política no mundo moderno, e considerar a
máxima: “A primeira coisa a dizer sobre a política é que política não é a primeira coisa.”
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Crise de Plausibilidade: Sempre que indivíduos cristãos e igrejas locais se tornam
mundanos ao caírem cativos na cultura que os cerca e, especialmente, no espírito e nos
sistemas do mundo moderno, eles representam uma “crise de plausibilidade” para o
Evangelho na melhor das hipóteses, e a “hipocrisia” na pior delas.
Os pontos negativos da era da comunicação: Entre as características comuns da era
da comunicação estão muitas deficiências graves na sua missão; por exemplo, o domínio
do modo de entretenimento, as frases de impacto como estilo, os apelos sensacionalistas,
a atenção comum somente aos sentimentos, a “desatenção” generalizada de um mundo
onde “todos falam e ninguém ouve,” a “inflação” de idéias e fontes para que sejam
apenas “palavras, palavras, palavras”, e a confiança geral na comunicação intermediada
em substituição da comunicação face a face, exemplificada na Encarnação. Considerando
que os cristãos usam a mídia moderna sem uma visão crítica, eles reduzem o Evangelho a
mais um discurso de vendas, entre muitos outros.
O efeito letal da secularização: “Nem só de pão vive o homem,” disse Jesus, mas,
graças ao poder e à genialidade das técnicas e percepções modernas, nenhuma geração
chegou mais próxima da ilusão de ser capaz de fazê-lo, incluindo a habilidade de
desenvolver igrejas e realizar o evangelismo eficaz baseado apenas na força da
ingenuidade humana, sem nenhuma necessidade genuína de Deus.
Em parte, esta não é a razão pela qual a diferença mais marcante entre a igreja primitiva e
a igreja moderna seja a falta de poder sobrenatural na igreja moderna, e que haja tanta
falta de oração, discernimento espiritual, e capacidade para cura, libertação e batalha
espiritual?
A secularização significa que, no mundo avançado moderno, vivemos em “sem janelas”,
fazendo com que para muitos cristãos modernos, o que não é visto acaba se tornando
irreal. Assim, é possível para nós vivermos como “ateus funcionais”, e cada vez mais
“deixemos de ter necessidade de Deus”, e missões sejam comandadas pelas estatísticas,
pela demografia, e pelo “revelar” o Evangelho “aos que não foram alcançados”, em vez
de ser comandada pela paixão tradicional por Cristo e pelos “perdidos.” 12
Ao mesmo tempo, o mundo pluralizado amplifica os temores que cercam os desafios de
viver com diferenças religiosas profundas; por isso a religião é vista como divergente, e o
evangelismo, como “proselitismo” sem fundamento e politicamente incorreto.
O toque de Midas do consumismo: Em um mundo onde o consumismo é a face
popular da economia capitalista dominante, o marketing e a gestão de marcas são
essenciais para o crescimento econômico, e tudo pode ser comprado e vendido como
“commodity”, o Evangelho pode facilmente ser distorcido quando apresentado ou
percebido como um “produto”, e o stress sobre o marketing pode acabar tornando “a
platéia” soberana sobre a mensagem. No melhor cenário, o resultado é o evangelismo
superficial e o discipulado deficiente. No pior cenário, é infidelidade ao Evangelho e
confusão e escândalo para aqueles a quem tentamos alcançar.
Dois perigos em particular precisam ser destacados aqui. Um deles são as distorções sutis
do Evangelho nas várias formas do moderno “raciocínio de possibilidade”, e o outro são
as distorções crassas e vis do Evangelho em suas várias formas de “Evangelhos para a
saúde e riqueza” ou “prosperidade”, que agora são exportados dos Estados Unidos para as
regiões do Sul Global, com efeitos perniciosos tanto para o evangelho quando para os
necessitados.
O ídolo da linha cronológica do tempo: Em um mundo de “vida-acelerada”, onde nos
importamos menos com o passado, mais com o presente que nos é trazido via
“informação completa e instantânea”, e, acima de tudo, com o futuro, é fatal que caiamos
nas ilusões e na idolatria alimentada pela época moderna avançada, assim como as
seduções de “relevância”, o chamado para o ideal de “inovação” incessante (“Há dois
tipos de igreja: aquelas que estão se transformando, e aquelas que estão saindo do ramo”),
e o apelo constante de novidade (“O mais novo é mais verdadeiro, e o mais recente é o
melhor”). A velha máxima ainda é verdade: “Aquele que se casar com o espírito desta era
logo se tornará viúvo.”
A pressão do “O Movimento dos Movimentos”: A maioria dos grandes movimentos
de reforma social na história, tais como a abolição da escravidão, foram inspirados na fé
cristã e liderados por pessoas de fé. Entretanto, isto é diferente na era global, quando os
problemas globais de todos os tipos inspiraram movimentos globais de todos os tipos 13
com participantes de todas as crenças: o chamado “movimento dos movimentos.” Em um
mundo assim, é bem-vindo o retorno a uma antiga paixão evangélica pela justiça social,
como exemplificado por grandes evangélicos como William Wilberforce, reconhecido
como o maior reformador social da história. Mas, assim como foi considerado negação
do Evangelho enfatizar o “Evangelho simples” à custa do “Evangelho social” – uma
negação muito bem corrigida em Lausanne I – agora, também considera-se negação do
Evangelho enfatizar o último à custa do primeiro, e falar sobre a justiça mas hesitar sobre
o escândalo da Cruz e o poder salvador de Cristo.
Criar e contribuir em lugar de criticar e reclamar: Num mundo onde os insatisfeitos
com a globalização tornam-se mais e mais evidentes, e o medo tornou-se a mais
dominante emoção em todos os lugares, é mais fácil criticar e reclamar em vez de criar e
contribuir. No entanto, não é apenas o mundo que clama por esperança e soluções
práticas, assim o faz também o imperativo do mandato cultural presente em toda a Bíblia.
Entre os muitos temas sobre os quais os Evangélicos têm recursos bíblicos e experiência
histórica para discorrer construtivamente está o tema da civilidade falsificada na
emergente “praça pública global”. Considerando que alguns cristãos ocidentais estejam
sendo atacados como parte do problema da religião e da vida pública, a defesa apropriada
da liberdade de consciência e de religião para pessoas de todas as crenças faria parte da
resposta, não apenas para o nosso próprio bem, mas pelo bem maior e shalom da
humanidade. O Congresso Lausanne III na Cidade do Cabo poderia assumir a liderança
neste momento.
Em suma, enquanto o mundo global oferece oportunidades sem precedentes para
alcançar povos e regiões do mundo que nunca foram alcançados, ele realça o contraste entre a
sabedoria do mundo e a tolice do Evangelho a um nível desconfortável e desencorajador. O
evangelismo na era global aparenta ser mais fácil, e sob vários pontos de vista realmente é, mas o
discipulado é inquestionavelmente mais difícil, assim como é custoso o evangelismo
encarnacional exemplificado na vida e na morte de Jesus, e não na genialidade das técnicas e das
percepções modernas.
Servindo a Deus em nossa própria geração 14
Cada geração está tão próxima de Deus quanto qualquer outra, e somos responsáveis
somente por nossa própria geração. No entanto, afirma-se que a geração dos jovens que estão
entrando na vida adulta hoje é a “geração confronto”, no sentido de que muitas das tendências
globais dos nossos dias estão convergindo para criar desafios inéditos para a humanidade. Quer
isto seja verdade ou engano, não é demais afirmar que a globalização representa a maior
oportunidade para o Evangelho desde os apóstolos, assim como o maior desafio ao Evangelho
desde os apóstolos, e que devemos responder com fé e coragem.
Acima de tudo, devemos enfrentar tanto as oportunidades quanto os desafios da
globalização como povo unido de Deus. Em particular, e recordando o trágico ponto cego da
Conferência de Edimburgo em 1910, devemos evitar o perigo do aspecto mundano do poder em
suas duas formas iguais e opostas. Por um lado, não podemos confundir a divulgação do
Evangelho com a divulgação do poder ocidental, não devemos confundir a postura profética
contra o poder Ocidental com as premissas e preconceitos do “pós-colonialismo” antiocidental.
Com o poder ocidental em visível declínio, temos menos desculpas para a primeira
confusão do que em Edimburgo, embora o poder econômico e cultural do Ocidente possa durar
mais que seu domínio político e militar. Em muitas partes do mundo, a tentação atual é acreditar
na confusão oposta apresentada pelo pós-colonialismo, mas isto colocaria cristãos contra cristãos
em nome da suspeita, da inveja e do ressentimento. E também dividiria a igreja conforme os
mesmos parâmetros como “o ocidente” versus “o resto”, “o Norte Global” contra o “Sul Global”,
ou as igrejas do mundo “mais desenvolvido” contra as igrejas do mundo “menos desenvolvido”.
Tais definições e limites “acidentais” e extrabíblicos foram o erro cometido em Edimburgo à luz
da noção artificial e territorial de “Mundo Cristão”. Temas missionários mais recentes, tais como
“Toda a igreja para o mundo todo” ou “Todos para todos e de todos os lugares para todos os
lugares”, não estão mais sintonizados com a era global, e sim mais fiéis à Grande Comissão.
Todos nós agradecemos a Deus pela prova clara do crescimento espetacular das
igrejas no Sul Global, com toda a sua coragem, paixão e poder do Espírito. Eles humilham o
contraste demasiadamente óbvio com a evidente pobreza espiritual das igrejas do ocidente. Mas,
ao mesmo tempo, humildemente, todos devemos estar cientes que muito do Sul Global ainda não
está completamente modernizado e, consequentemente, não totalmente testado pelos futuros 15
desafios e seduções da modernidade, dos quais a igreja no ocidente tornou-se cativa. O teste
ainda está por vir.
Do mesmo modo, todos nós reconhecemos abertamente e nos entristecemos com a
fraqueza desesperada e com o mundanismo de muitas igrejas no ocidente, e sua necessidade
profunda de reavivamento e transformação. No entanto, sua triste condição pode resistir como
um alerta útil a todas as igrejas de outros lugares do mundo: Não façam como as igrejas
ocidentais têm feito durante os últimos duzentos anos, tornando-se cativas do espírito e sistemas
do mundo moderno. Assim, todas as igrejas globais podem unir as mãos em oração com as
igrejas ocidentais no momento de seu maior desafio.
E então, as igrejas globais em todo o mundo podem se tornar parceiras e juntar forças
para enfrentar a tarefa de recuperar uma fé com tal integridade e eficácia, que pode prevalecer
sobre os desafios do mundo avançado moderno, e assim honrar ao nosso Senhor e trazer sua Boa
Nova ao mundo.
Nada menos do que isto é o supremo desafio apresentado pela globalização aos
seguidores de Jesus Cristo, e nada menos do que isto é a urgência do tema que iremos explorar
juntos na sessão Multiplex na Cidade do Cabo, em outubro de 2010. Para sermos francos, o tema
da globalização é muito amplo e a sessão é muito curta para fazer justiça à sua dimensão. Mas
seja naquele momento ou mais tarde, conforme este século extraordinário se desenrola, que
possamos confiar que Deus é maior do que tudo, inclusive a globalização, para que confiemos
em Deus em todas as situações, e possamos ter fé em Deus, e não ter medo.
O discipulado cristão e a missão na era da globalização
Contato principal: Os Guinness
Autores: Os Guinness e David Wells
Observação do Editor: Este Documento Avançado de Cape Town 2010 foi escrito por Os
Guinness com o objetivo de oferecer um panorama do tema a ser discutido na sessão Multiplex
intitulada “Globalização.” Os comentários sobre este documento feitos através da Conversa
Lausanne Global serão enviados ao autor e a outras pessoas para que se chegue ao formato final
a ser apresentado no Congresso.
A “Globalização” é um desafio monumental que representa, simplesmente, a face
mais crítica do “mundo” de hoje, bem como a maior oportunidade para a missão e o maior
desafio que o discipulado de Jesus Cristo já enfrentou, desde os apóstolos do primeiro século.
Nunca a visão “do evangelho todo para o mundo todo através de toda a igreja” esteve tão
próxima e, no entanto, esta visão nunca foi tão contestada.
A força de dois gumes da igreja
Como cristãos, e como igreja de Jesus Cristo, somos chamados por nosso Senhor
para “estarmos no” mundo, mas não para “sermos do” mundo. “Não somos mais” quem éramos
antes de conhecer a Cristo, e “ainda não somos” o que seremos quando Cristo voltar. Este
estimulante chamado à tensão, tanto no tempo quanto no espaço, jaz no coração da nossa fé.
Individual e coletivamente, devemos viver no mundo com uma postura de Sim e Não, de
afirmação e antítese, “contra o mundo/a favor do mundo”.
Esta tensão é crucial à fé da igreja e à sua integridade e eficácia no mundo. Quando a
igreja de Cristo permanece fiel ao seu chamado, vive em uma tensão criativa, pré-requisito de
seu poder transformador na cultura e na história. Porque a fé cristã, sem embaraço nenhum,
certifica o mundo e tem um recorde inigualável em sua contribuição à educação, à filantropia, às
reformas sociais, à medicina, ao despertar da ciência, à emergência da democracia e dos direitos
humanos, assim como à construção de escolas, hospitais, universidades, orfanatos, 2
e outras instituições beneficentes. No entanto, ao mesmo tempo, a fé cristã também nega o
mundo, defendendo o papel de profetas assim como de pregadores, o sacrifício assim como a
realização, a importância do jejum assim como o banquete, e defendendo a exposição e oposição
ao mundo quando suas atitudes contrariam os mandamentos de Deus e os interesses da
humanidade.
Não nos surpreende, portanto, que tenha sido constante na igreja a tentação de relaxar
esta tensão de um lado ou do outro, de tal maneira que os cristãos de diferentes épocas têm, às
vezes, tantos elementos do mundo, que acabam sendo “do mundo”, e tantos elementos que não
são do mundo, que acabam tornando-se “sem utilidade para o mundo”. Em qualquer uma das
opções, tal infidelidade significa que a igreja se enfraquece, mas a infidelidade na direção do
mundanismo é pior do que a fraqueza, pois coloca a igreja, assim como Israel no Antigo
Testamento, sob a sombra do julgamento de Deus.
Este desafio leva consigo uma implicação inevitável: A fé cristã em qualquer geração
exige uma compreensão clara do mundo de seu tempo. A visão bíblica do “mundo” tem muitas
dimensões, que vão do mundo que Deus criou e ama, ao mundo que “resiste contra” o reinado de
Cristo, para o qual deveríamos ter várias respostas apropriadas. Sob um ponto de vista positivo,
compreender o mundo é algo inerente e exigido por nosso desejo de testemunhar, porque a
comunicação sempre pressupõe compreensão do contexto. Sob um ponto de vista negativo,
compreender o mundo é algo inerente e exigido pela vigilância contra os perigos do
mundanismo, pois somente podemos evitar o que compreendemos bem.
Estamos aqui reunidos na Conferência Cape Town 2010, cem anos após a grande
conferência missionária de Edimburgo, em junho de 1910. Seria verdade afirmar que a visão e a
iniciativa missionárias de Edimburgo têm sido gloriosamente justificadas e cumpridas no
emergir da igreja global durante os últimos cem anos. Mas deve-se também dizer que o ponto
cego trágico da Conferência de Edimburgo foi sua falta de autocrítica em relação a sua própria
posição no mundo, e em particular, seu fracasso em reconhecer sua escravidão às poderosas
ilusões do “Mundo Cristão” Europeu, pouco antes de seu colossal colapso nas Guerras Mundiais,
o repúdio ao imperialismo, e sua própria auto-induzida secularização. Embora hoje não sejamos
mais oniscientes do que nossas irmãs e irmãos que se reuniram em Edimburgo, devemos nos 3
empenhar em ser mais autocríticos através da compreensão do nosso mundo e de nosso lugar
nele.
Fazendo as pazes com a “globalização”
O que é, então, “o mundo” de nossos dias? Sem qualquer sombra de dúvida, a simples
e mais forte expressão da face do mundo de nosso tempo – o avançado mundo moderno do início
do século vinte e um – é a globalização, processo pelo qual a interconectividade expandiu-se a
um nível verdadeiramente global. Há muitas pessoas, como, por exemplo, os escritores da revista
The Economist, que atribuem a globalização à propagação do capitalismo de mercado em todo o
mundo, e utilizam a palavra somente como um sinônimo desta expansão. Mas isto, além de
demonstrar interesses pessoais, está errado. A globalização é um processo multidimensional e o
principal agente em sua expansão atual não é o capitalismo, por mais poderoso e importante que
seja, e sim, a tecnologia de informação. No centro da onda atual de globalização estão as “três
forças S”: speed – VELOCIDADE (a capacidade de comunicação instantânea), scope – ESCOPO
(a capacidade de comunicar-se com o mundo todo), e simultaneity – SIMULTANEIDADE (a
capacidade de comunicar-se com vários lugares ao mesmo tempo). Juntas, estas forças têm
moldado nosso “mundo conectado” e produzido um impacto triplo sem precedentes sobre a vida
humana: a aceleração, a compressão e a intensificação da vida humana na Terra em todo o
mundo global.
Considerar “sem precedentes” os níveis atuais de globalização é apropriado, mas
estes níveis devem ser qualificados imediatamente. A globalização é única na história até agora,
mas há muitos precedentes de movimento em sua direção, incluindo a expansão missionária das
grandes religiões do mundo, o impacto dos avanços nos transportes e a ampliação das redes de
contatos criadas pelo comércio, e os efeitos abrangentes das conquistas militares e imperialistas.
Da mesma forma, há grandes avanços ocorridos em outros tempos que podem ser considerados
de impacto revolucionário sobre a vida humana, tais como a invenção da escrita, do alfabeto e da
roda.
Desta forma, se analisada a partir de uma perspectiva histórica mais distante, a
avançada globalização moderna é apenas a última de uma série de ondas na expansão da
interconectividade humana. Mas, se analisada a partir de uma perspectiva mais próxima, a 4
globalização representa uma mudança importante que vai da Revolução Industrial, centrada na
produção e caracterizada pela fábrica, para a Revolução da Informação, centrada na
comunicação e caracterizada pelo computador. Nos dois casos, devemos levar em consideração
tanto a continuidade e a descontinuidade com o passado, e precisamos fazer nossas afirmações
sobre o presente com precisão e humildade.
Não é necessário dizer que a globalização propõe um desafio tanto a precisão quanto
a humildade, e que precisamos começar evitando os dois perigos opostos mas semelhantes no
qual muitos caem: a excessiva atitude “Uau!” dos líderes de torcida e o excessivo “trevas e
morte” dos rabugentos (que, em seu ponto de vista cristão, enxergam a globalização como
precursora do “fim dos tempos”). Em qualquer época, há três tarefas a serem enfrentadas pelos
cristãos que desejam lutar contra o mundo de seu tempo e viver como fiéis seguidores do
Caminho de Jesus.
A primeira tarefa é discernir, e assim, fazer uma descrição precisa das realidades do
mundo onde nos encontramos.
A segunda tarefa é avaliar, e assim, pesar os prós e os contras, o benefício e o custo
do mundo como um todo, assim como dos elementos e aspectos individuais deste mundo, todos
avaliados a partir do contexto da visão bíblica de mundo.
A terceira é envolver-se e, assim, entrar no mundo como discípulos de Jesus
chamados para ser sal e luz, usando com gratidão o que há de melhor no mundo como presentes
de Deus, e evitando diligentemente o pior deste mundo. Ou como a igreja no passado expressava,
devemos “despojar os Egípcios de seu ouro,” como o Senhor ordenou a Israel, mas nunca
edificar “um bezerro de ouro,” como Israel mais tarde foi julgado por fazer.
É fácil dizer, mas, graças à globalização, estas tarefas cristãs básicas são mais difíceis
de serem realizadas do que jamais foram. A história é sempre mais complexa do que podemos
entender, e prossegue não pela simples influência de certos fatores, mas por sua complicada
interação e através das ironias de suas conseqüências não intencionais. A globalização apenas
aumenta nossa dificuldade de compreender, porque, por sua própria natureza, ela significa que
nós, que somos finitos, hoje, temos que lidar com todo este mundo; em outras palavras, um
mundo que está sempre muito além de nossa total compreensão. E estamos lidando com o mundo 5
enquanto ele se comunica e se transforma a uma velocidade sem precedentes; em outras
palavras, um mundo que pode ter mudado antes mesmo que tenhamos terminado de descrevê-lo.
Uma segurança é lembrar que muitas de nossas melhores descrições sempre exigem
lembretes imediatos. Primeiro, a globalização quase sempre envolve duas forças que se
contrabalançam, e não simplesmente uma: se o mundo é “universal” de muitas maneiras, ele é
também “local” de muitas maneiras (o que ajudou a cunhar o estranho termo “glocal”, usado
para descrever o impacto do global sobre o local e do local sobre o global). Em segundo lugar,
em cada nova tendência sempre há vencedores e perdedores, e os cristãos que honram o seu
Mestre nunca devem perder de vista o pobre, o oprimido e os economicamente excluídos,
especialmente os que são pegos pelas desigualdades selvagens do mundo globalizado. Terceiro,
há “modernidades múltiplas”, ou diferentes formas de ser moderno, o que torna o velho adágio
“Globalização igual à Ocidentalização, igual à Americanização” não apenas um conceito errado,
mas também perigoso. Culturas diferentes, com sua própria história e seus próprios valores, são
capazes de se adaptar ao mundo moderno à sua própria maneira, e podem sempre tentar dizer
Não ao que é considerado “progresso”, e não dizer simplesmente Sim.
A fé Global por excelência
O ponto crucial e supremo de toda a discussão é que a globalização tem especial
relevância para os cristãos, porque a fé cristã é uma fé essencialmente global. Para qualquer
observador da cena global, certos fatos são evidentes e estão acima de qualquer questão: A fé
cristã é a primeira religião verdadeiramente global do mundo. Os cristãos são o grupo mais
numeroso de religiosos do mundo. A igreja cristã é a comunidade mais diversificada da Terra. A
Bíblia é o livro mais traduzido da história. E em muitas partes do mundo, a fé cristã é a que mais
cresce no mundo, especialmente quando o crescimento baseia-se na conversão, e não na taxa de
natalidade. E assim por diante.
Tais fatos não são acidentais, porque a globalização é parte integrante da fé cristã. Por
um lado, a fé cristã era global antes da criação do termo, iniciando não apenas com a Grande
Comissão a todo mundo, mas com a promessa a Abraão de que ele seria pai dos fiéis e uma
benção para todo o mundo. Por outro lado, a igreja cristã tem sido uma das maiores “portadoras”
da globalização através da história, como por exemplo, na expansão missionária da igreja do 6
primeiro século, nas missões protestantes do século dezenove e na evangelização de todo o
mundo pelas igrejas de todas as partes do mundo. O trabalho extraordinário das igrejas coreanas
é um exemplo contundente. E por outro lado ainda, as ONG (organizações não governamentais)
cristãs, tais como a Visão Mundial, Opportunity International, Compassion, Food for the Hungry
e a International Justice Mission, geralmente, são portadoras pioneiras da globalização no mundo
hoje.
Reunidos estes fatores, fica claro que, se a igreja cristã cumprir o seu chamado e
proclamar o Evangelho em sua totalidade, ela será portadora natural do Evangelho global, na era
global: “a melhor notícia de todos os tempos” para toda a humanidade. Estes são, nada menos,
que nosso privilégio e nossa responsabilidade na era global.
Principais transformações
Nosso foco principal no Congresso Lausanne na Cidade do Cabo serão as implicações
da globalização para o discipulado e para o evangelismo. Mas é crucial enfatizar que a
globalização está transformando praticamente todos os aspectos da vida humana no planeta, e
todas estas transformações têm influência sobre o discipulado e o evangelismo, de uma maneira
ou de outra. Algumas das principais transformações que exigem mais atenção estão resumidas
brevemente a seguir:
Nosso senso de tempo em um mundo de “vida acelerada”, somos a primeira geração a
viver a uma velocidade acima da compreensão humana (“negócios à velocidade da luz,” e
coisas do gênero);
Nosso senso de lugar, quando o espaço é “comprimido”, a geografia é “abolida”, e
podemos nos comunicar instantaneamente com qualquer lugar do mundo, e viajar a
qualquer lugar em 24 horas;
Nosso senso de realidade, quando a vida é cada vez mais “intermediada”; o “virtual”
substitui o natural, e os relacionamentos face a face dão passagem à interação virtual;
Nossa noção de identidade, quando o definitivo e permanente transforma-se em
“infinitamente multiforme” e numerosas “mudanças de identidade” oferecem identidades
coletivas para os que sofrem com a transformação das identidades tradicionais; 7
Nossa experiência de família, quando os laços sociais de união se “desfazem”, os
papéis tradicionais de cada sexo são desafiados e substituídos, e o disfuncional torna-se
normal;
Nossa experiência de comunidade, quando o que era face a face passa a ser “virtual e
imaginado”;
Nossa experiência de trabalho, quando a globalização torna frágil a segurança do
emprego, e as “carreiras de portfolio” tornam-se a norma;
O lugar da religião na vida moderna, quando a religião tradicional é “des-
monopolizada” e “des-territorializada”, e a religião torna-se “religiosidade” ou uma vaga
“espiritualidade”;
O desafio de outras religiões e, especialmente, de “viver com nossas mais profundas
diferenças” na emergente “praça pública global”;
O lugar da política, quando o “supranacional” sobrepõe-se ao nacional, e os estados
da nação são disputados por muitos agentes da globalização;
O desafio de trabalhar na direção de uma “autoridade global sem um governo
mundial”;
A tarefa da liderança em uma era interconectada, em que os líderes lidam
com “todo o mundo o tempo topo”;
A natureza do conhecimento, com a explosão da informação, a “generalidade”
substitui a especialização, e a Internet torna-se uma “lata de lixo” e, ao mesmo tempo,
uma “mina de ouro”;
O poder do consumismo e a transformação do desejo humano, seu apelo para
comoditizar tudo, e seu grande acúmulo de dívidas e de lixo;
A proliferação de ideologias, e especialmente das novas ideologias ferozmente pró-
globalistas, tal como o capitalismo neoliberal, ou ferozmente anti-globalistas, tal como o
“pós-colonialismo”;
A viagem na modernidade e a vasta indústria turística global, que têm gerado males
como o “turismo sexual”, a migração moderna e a “manufatura de pessoas descartáveis”
como os milhões deixados sem teto, sem identidade, sem emprego, e sem pátria em
campos de refugiados;
8
Nossas atitudes em relação ao planeta Terra, quando a degradação expõe a sua
fragilidade não renovável;
Nosso senso de gerações, quando o ritmo de vida estimula a “presunção das
gerações” e a miopia que a afasta da sabedoria dos idosos e do passado;
Nossa atitude diante da tradição e da mudança, quando a novidade e a moda
derrotam a sabedoria, os costumes e os “hábitos do coração”;
A dominância das emoções mundiais, como o medo e as fofocas desmedidas, que se
transformam em terrorismo e alarmismo;
A importância e a escala do mal, do sofrimento, do crime e da opressão globalizados,
e as múltiplas consequências para a justiça e a compaixão, e principalmente, o tráfico
global quer seja de sexo, de órgãos, e até de seres humanos;
A escalada exponencial dos efeitos colaterais globais, e de suas consequências não
intencionais, dos resultados desconhecidos e dos “cisnes negros”;
A perspectiva para a raça humana, incluindo a degradação da Terra, a destruição
potencial do planeta, a extinção da espécie humana, e a questão do “futuro pós-humano”;
Uma descrição apropriada destas transformações profundas vai muito além da
abrangência deste breve ensaio introdutório. Mas tais conseqüências nunca devem ser
esquecidas, pois elas definem o mundo onde vivemos e onde testemunhamos o nosso Senhor.
Entretanto, nosso foco, aqui está em duas áreas centrais: globalização e discipulado, e
globalização e missão.
O discipulado cristão na era global
Se a globalização tem dimensões tanto locais quanto globais, e se os seus imensos
benefícios estão atrelados a sombras extraordinárias da forma como estão, então, ela representa
desafios complexos para o discipulado cristão. Como avaliamos os benefícios e o preço como
seguidores de Cristo? E como avaliamos este mundo que vive em nossa consciência, tanto na
macro quanto na micro visão? 9
Se a Igreja for fiel ao seu chamado, pensará globalmente. Caso contrário, será mais
provinciana do que seus vizinhos não cristãos e, o que é pior, infiel ao chamado do
Evangelho.
A consciência global tende a relativizar e, consequentemente, diminuir todas as
afirmações de verdade absoluta, porque a aceitação de outras religiões e visões de mundo
mina a possibilidade de que qualquer uma delas possa ser verdadeira de fato;
O capitalismo e a tecnologia estão se unindo para produzir abundância sem paralelos
nos países desenvolvidos, levantando questionamentos para a fé cristã. Paradoxalmente,
nesses países as pessoas nunca tiveram tanto para viver e tão pouco pelo que viver; nunca
experimentaram tamanha abundância obtida através de produtos de baixo custo de
produção e, no entanto, os níveis de depressão, ansiedade e solidão nunca foram tão altos.
Com freqüência, os cristãos destes países não se distinguem dos não-cristãos na maneira
como pensam e vivem; primeiro, quanto à riqueza e depois, indo além, quanto ao
significado da vida e do que constitui uma “boa vida.” Esta conseqüência da
globalização é agora mais óbvia no Ocidente, mas se tornará um desafio onde quer que o
mundo esteja se modernizando.
Em um mundo conectado eletrônica e virtualmente, a tendência é que diminua o
relacionamento humano face a face e que aumentem os “relacionamentos virtuais” e a
rede de contatos sociais. Há um questionamento se as pessoas ainda devem “ir” à igreja.
Mas, é a “igreja” meramente uma “comunidade imaginada” que existe somente no
etéreo? E como este “mundo intermediado” impacta o discipulado moldado na realidade
de carne e sangue da Encarnação?
Numa época em que o poder do “mundo” não tem precedentes no que se refere à sua
pressão e invasão, a tendência é que expressões da fé cristã (e também de outras
religiões) sejam atraídas aos extremos de um fundamentalismo que desafia o mundo ou
de um de revisionismo liberal que se acomoda ao mundo. Se o primeiro desenvolve
caminhos de vida contraditórios ao Caminho de Jesus, o segundo leva a uma negação
descarada da histórica adoração cristã a Jesus, à promoção do que a Bíblia condena como
“outro evangelho”, e ao fim da missão cristã por completo. A fidelidade ao exemplo
contrastante entre “estar no mundo” mas não “ser do mundo” é mais vital do que nunca. 10
A Missão cristã na era global
As crescentes oportunidades para missão e evangelismo na era global são imensas e
óbvias. Os cristãos são, por definição, grandes comunicadores, e, por definição, a era global é a
grande era da comunicação; portanto, o potencial de evangelismo no mundo global dificilmente
será superestimado. Com a destruição das tradições, o colapso das certezas tradicionais e a
destruição dos papeis e das alianças tradicionais, há uma maior liberdade política, maior fluidez
social, maior diversidade religiosa e maior vulnerabilidade psicológica já vistas na história.
Como resultado, os seres humanos na era global têm sido descritos como “propensos à
conversão” e mais abertos do que nunca a considerar novas crenças. Assim sendo, nós
enfrentamos a perspectiva de proclamar o Evangelho de uma maneira “mais livre, mais rápida e
em locais mais distantes” do que em qualquer outro momento na história da igreja, uma
perspectiva que deve ser abraçada com fé e coragem.
Ao mesmo tempo, seria ingênuo não perceber que os crescentes desafios à missão e
ao evangelismo são igualmente poderosos, e devem ser encarados francamente. Os nove temas
seguintes são exemplos do tipo de desafios que devemos considerar na era global.
A tentação política: Com a crise geral da fé no mundo avançado moderno, a tentação
política hoje é diferente daquela de Edimburgo 1910, ou da igreja sob Constantino em
312 d.C. Em um extremo, mais comum no ocidente, a tentação é ver a fé cristã como a
melhor maneira de defender o status quo e de apoiar as culturas que estão sob tensão. No
outro extremo, mais frequente fora do Ocidente, a tentação é ver a fé cristã como uma
variante da crítica pós-colonial, justificando o preconceito, canalizando a ira e incitando a
amargura, na tentativa de promover a transformação social.
Em qualquer dos extremos, a história demonstra ser quase ineficaz para a cultura e
desastrosa para a igreja. E no processo, a fé cristã fica pressionada a serviço de uma ou
outra ideologia política, perdendo a característica distinta de ser o caminho de Jesus, e
terminando como o capelão da corte para os poderosos da época. Ambos extremos
precisam ser cuidadosos com a idolatria da política no mundo moderno, e considerar a
máxima: “A primeira coisa a dizer sobre a política é que política não é a primeira coisa.”
11
Crise de Plausibilidade: Sempre que indivíduos cristãos e igrejas locais se tornam
mundanos ao caírem cativos na cultura que os cerca e, especialmente, no espírito e nos
sistemas do mundo moderno, eles representam uma “crise de plausibilidade” para o
Evangelho na melhor das hipóteses, e a “hipocrisia” na pior delas.
Os pontos negativos da era da comunicação: Entre as características comuns da era
da comunicação estão muitas deficiências graves na sua missão; por exemplo, o domínio
do modo de entretenimento, as frases de impacto como estilo, os apelos sensacionalistas,
a atenção comum somente aos sentimentos, a “desatenção” generalizada de um mundo
onde “todos falam e ninguém ouve,” a “inflação” de idéias e fontes para que sejam
apenas “palavras, palavras, palavras”, e a confiança geral na comunicação intermediada
em substituição da comunicação face a face, exemplificada na Encarnação. Considerando
que os cristãos usam a mídia moderna sem uma visão crítica, eles reduzem o Evangelho a
mais um discurso de vendas, entre muitos outros.
O efeito letal da secularização: “Nem só de pão vive o homem,” disse Jesus, mas,
graças ao poder e à genialidade das técnicas e percepções modernas, nenhuma geração
chegou mais próxima da ilusão de ser capaz de fazê-lo, incluindo a habilidade de
desenvolver igrejas e realizar o evangelismo eficaz baseado apenas na força da
ingenuidade humana, sem nenhuma necessidade genuína de Deus.
Em parte, esta não é a razão pela qual a diferença mais marcante entre a igreja primitiva e
a igreja moderna seja a falta de poder sobrenatural na igreja moderna, e que haja tanta
falta de oração, discernimento espiritual, e capacidade para cura, libertação e batalha
espiritual?
A secularização significa que, no mundo avançado moderno, vivemos em “sem janelas”,
fazendo com que para muitos cristãos modernos, o que não é visto acaba se tornando
irreal. Assim, é possível para nós vivermos como “ateus funcionais”, e cada vez mais
“deixemos de ter necessidade de Deus”, e missões sejam comandadas pelas estatísticas,
pela demografia, e pelo “revelar” o Evangelho “aos que não foram alcançados”, em vez
de ser comandada pela paixão tradicional por Cristo e pelos “perdidos.” 12
Ao mesmo tempo, o mundo pluralizado amplifica os temores que cercam os desafios de
viver com diferenças religiosas profundas; por isso a religião é vista como divergente, e o
evangelismo, como “proselitismo” sem fundamento e politicamente incorreto.
O toque de Midas do consumismo: Em um mundo onde o consumismo é a face
popular da economia capitalista dominante, o marketing e a gestão de marcas são
essenciais para o crescimento econômico, e tudo pode ser comprado e vendido como
“commodity”, o Evangelho pode facilmente ser distorcido quando apresentado ou
percebido como um “produto”, e o stress sobre o marketing pode acabar tornando “a
platéia” soberana sobre a mensagem. No melhor cenário, o resultado é o evangelismo
superficial e o discipulado deficiente. No pior cenário, é infidelidade ao Evangelho e
confusão e escândalo para aqueles a quem tentamos alcançar.
Dois perigos em particular precisam ser destacados aqui. Um deles são as distorções sutis
do Evangelho nas várias formas do moderno “raciocínio de possibilidade”, e o outro são
as distorções crassas e vis do Evangelho em suas várias formas de “Evangelhos para a
saúde e riqueza” ou “prosperidade”, que agora são exportados dos Estados Unidos para as
regiões do Sul Global, com efeitos perniciosos tanto para o evangelho quando para os
necessitados.
O ídolo da linha cronológica do tempo: Em um mundo de “vida-acelerada”, onde nos
importamos menos com o passado, mais com o presente que nos é trazido via
“informação completa e instantânea”, e, acima de tudo, com o futuro, é fatal que caiamos
nas ilusões e na idolatria alimentada pela época moderna avançada, assim como as
seduções de “relevância”, o chamado para o ideal de “inovação” incessante (“Há dois
tipos de igreja: aquelas que estão se transformando, e aquelas que estão saindo do ramo”),
e o apelo constante de novidade (“O mais novo é mais verdadeiro, e o mais recente é o
melhor”). A velha máxima ainda é verdade: “Aquele que se casar com o espírito desta era
logo se tornará viúvo.”
A pressão do “O Movimento dos Movimentos”: A maioria dos grandes movimentos
de reforma social na história, tais como a abolição da escravidão, foram inspirados na fé
cristã e liderados por pessoas de fé. Entretanto, isto é diferente na era global, quando os
problemas globais de todos os tipos inspiraram movimentos globais de todos os tipos 13
com participantes de todas as crenças: o chamado “movimento dos movimentos.” Em um
mundo assim, é bem-vindo o retorno a uma antiga paixão evangélica pela justiça social,
como exemplificado por grandes evangélicos como William Wilberforce, reconhecido
como o maior reformador social da história. Mas, assim como foi considerado negação
do Evangelho enfatizar o “Evangelho simples” à custa do “Evangelho social” – uma
negação muito bem corrigida em Lausanne I – agora, também considera-se negação do
Evangelho enfatizar o último à custa do primeiro, e falar sobre a justiça mas hesitar sobre
o escândalo da Cruz e o poder salvador de Cristo.
Criar e contribuir em lugar de criticar e reclamar: Num mundo onde os insatisfeitos
com a globalização tornam-se mais e mais evidentes, e o medo tornou-se a mais
dominante emoção em todos os lugares, é mais fácil criticar e reclamar em vez de criar e
contribuir. No entanto, não é apenas o mundo que clama por esperança e soluções
práticas, assim o faz também o imperativo do mandato cultural presente em toda a Bíblia.
Entre os muitos temas sobre os quais os Evangélicos têm recursos bíblicos e experiência
histórica para discorrer construtivamente está o tema da civilidade falsificada na
emergente “praça pública global”. Considerando que alguns cristãos ocidentais estejam
sendo atacados como parte do problema da religião e da vida pública, a defesa apropriada
da liberdade de consciência e de religião para pessoas de todas as crenças faria parte da
resposta, não apenas para o nosso próprio bem, mas pelo bem maior e shalom da
humanidade. O Congresso Lausanne III na Cidade do Cabo poderia assumir a liderança
neste momento.
Em suma, enquanto o mundo global oferece oportunidades sem precedentes para
alcançar povos e regiões do mundo que nunca foram alcançados, ele realça o contraste entre a
sabedoria do mundo e a tolice do Evangelho a um nível desconfortável e desencorajador. O
evangelismo na era global aparenta ser mais fácil, e sob vários pontos de vista realmente é, mas o
discipulado é inquestionavelmente mais difícil, assim como é custoso o evangelismo
encarnacional exemplificado na vida e na morte de Jesus, e não na genialidade das técnicas e das
percepções modernas.
Servindo a Deus em nossa própria geração 14
Cada geração está tão próxima de Deus quanto qualquer outra, e somos responsáveis
somente por nossa própria geração. No entanto, afirma-se que a geração dos jovens que estão
entrando na vida adulta hoje é a “geração confronto”, no sentido de que muitas das tendências
globais dos nossos dias estão convergindo para criar desafios inéditos para a humanidade. Quer
isto seja verdade ou engano, não é demais afirmar que a globalização representa a maior
oportunidade para o Evangelho desde os apóstolos, assim como o maior desafio ao Evangelho
desde os apóstolos, e que devemos responder com fé e coragem.
Acima de tudo, devemos enfrentar tanto as oportunidades quanto os desafios da
globalização como povo unido de Deus. Em particular, e recordando o trágico ponto cego da
Conferência de Edimburgo em 1910, devemos evitar o perigo do aspecto mundano do poder em
suas duas formas iguais e opostas. Por um lado, não podemos confundir a divulgação do
Evangelho com a divulgação do poder ocidental, não devemos confundir a postura profética
contra o poder Ocidental com as premissas e preconceitos do “pós-colonialismo” antiocidental.
Com o poder ocidental em visível declínio, temos menos desculpas para a primeira
confusão do que em Edimburgo, embora o poder econômico e cultural do Ocidente possa durar
mais que seu domínio político e militar. Em muitas partes do mundo, a tentação atual é acreditar
na confusão oposta apresentada pelo pós-colonialismo, mas isto colocaria cristãos contra cristãos
em nome da suspeita, da inveja e do ressentimento. E também dividiria a igreja conforme os
mesmos parâmetros como “o ocidente” versus “o resto”, “o Norte Global” contra o “Sul Global”,
ou as igrejas do mundo “mais desenvolvido” contra as igrejas do mundo “menos desenvolvido”.
Tais definições e limites “acidentais” e extrabíblicos foram o erro cometido em Edimburgo à luz
da noção artificial e territorial de “Mundo Cristão”. Temas missionários mais recentes, tais como
“Toda a igreja para o mundo todo” ou “Todos para todos e de todos os lugares para todos os
lugares”, não estão mais sintonizados com a era global, e sim mais fiéis à Grande Comissão.
Todos nós agradecemos a Deus pela prova clara do crescimento espetacular das
igrejas no Sul Global, com toda a sua coragem, paixão e poder do Espírito. Eles humilham o
contraste demasiadamente óbvio com a evidente pobreza espiritual das igrejas do ocidente. Mas,
ao mesmo tempo, humildemente, todos devemos estar cientes que muito do Sul Global ainda não
está completamente modernizado e, consequentemente, não totalmente testado pelos futuros 15
desafios e seduções da modernidade, dos quais a igreja no ocidente tornou-se cativa. O teste
ainda está por vir.
Do mesmo modo, todos nós reconhecemos abertamente e nos entristecemos com a
fraqueza desesperada e com o mundanismo de muitas igrejas no ocidente, e sua necessidade
profunda de reavivamento e transformação. No entanto, sua triste condição pode resistir como
um alerta útil a todas as igrejas de outros lugares do mundo: Não façam como as igrejas
ocidentais têm feito durante os últimos duzentos anos, tornando-se cativas do espírito e sistemas
do mundo moderno. Assim, todas as igrejas globais podem unir as mãos em oração com as
igrejas ocidentais no momento de seu maior desafio.
E então, as igrejas globais em todo o mundo podem se tornar parceiras e juntar forças
para enfrentar a tarefa de recuperar uma fé com tal integridade e eficácia, que pode prevalecer
sobre os desafios do mundo avançado moderno, e assim honrar ao nosso Senhor e trazer sua Boa
Nova ao mundo.
Nada menos do que isto é o supremo desafio apresentado pela globalização aos
seguidores de Jesus Cristo, e nada menos do que isto é a urgência do tema que iremos explorar
juntos na sessão Multiplex na Cidade do Cabo, em outubro de 2010. Para sermos francos, o tema
da globalização é muito amplo e a sessão é muito curta para fazer justiça à sua dimensão. Mas
seja naquele momento ou mais tarde, conforme este século extraordinário se desenrola, que
possamos confiar que Deus é maior do que tudo, inclusive a globalização, para que confiemos
em Deus em todas as situações, e possamos ter fé em Deus, e não ter medo.
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No altar? Em santidade!









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