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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Onde Está o Fogo? - Del Fehsenfeld, Jr.

Del Fehsenfeld Jr.
Fora um dia extremamente exaustivo. O sol quente castigava impiedosamente a terra árida e endurecida. A multidão, que parecia ter ficado sob esse céu sem nuvens por uma eternidade, continuava assistindo em silêncio ao confronto decisivo entre Baal e Jeová. O time de Jeová estava em absurda desvantagem: 850 a 1, em favor de Baal.

Parecia que nem uma folha se mexia enquanto todos observavam e esperavam em suspense. Os profetas de Baal tentavam uma tática após outra para persuadir o deus do relâmpago e do fogo a se manifestar, provar sua existência e mandar fogo do céu. Suplicavam e clamavam. Como nada aconteceu, clamaram com mais insistência, fizeram propostas, exigiram que Baal lhes atendesse e mandasse fogo. Ainda assim, não veio resposta alguma. Nada de fogo do céu.

Contudo, não se intimidaram. Com persistência admirável, saltaram em cima do altar e cortaram-se até escorrer o sangue – em tentativas desesperadas e inúteis de demonstrar a Baal sua sinceridade e de conseguir alguma evidência, qualquer coisa que pudesse provar a realidade espiritual. Porém, não veio sinal algum de fogo do céu – nem sequer uma faísca.

Para dizer a verdade, há mais de três anos, não havia qualquer movimento dos céus, qualquer sinal de vida, de espécie alguma – nada de fogo, de chuva, de mensagem, de realidade. Esgotados com os exercícios fúteis, os representantes de Baal viram seu desejo transformar-se em desapontamento e, finalmente, em derrota.

Nesse ponto do relato de 1 Reis 18, é impossível deixar de observar algumas semelhanças muito evidentes com o tempo atual. O grande problema na igreja contemporânea é que, apesar de seu tamanho e da quantidade de atividades, não há uma verdadeira manifestação da glória da presença de Deus.

De modo geral, não nos faltam atividade, fervor e tentativas sinceras de obter poder espiritual. Pelo contrário, as agendas das igrejas estão inchadas de cultos, retiros, conferências e programas. Fazemos muito barulho. Estamos ocupados, intensos e, talvez, sinceros, mas o céu continua mantendo um silêncio ensurdecedor. Não há sinal de fogo.

Não é que não estejamos tentando. Estamos tentando e como! Aparentemente, porém, todos os nossos programas, promoções, reuniões, caravanas, orçamentos, batismos, comitês e convenções fracassaram. Não conseguiram produzir aquilo de que precisamos com mais urgência: fogo do céu.

Enquanto os líderes espirituais e ativistas correm para cá e para lá, tentando produzir faíscas, o membro normal de igreja continua agindo como espectador, esperando ao lado do restante do mundo e perguntando onde está o fogo.


Chamando fogo do céu
Entra em cena, neste instante, uma figura solitária. Três anos atrás, havia despertado a ira do rei e, desde então, tornara-se fugitivo. Seria de se imaginar que se intimidasse ao se apresentar diante do monarca ofendido. Afinal, corria grande risco de vir a perder a vida. No entanto, não foi isso que aconteceu; apresentou-se com segurança, confiança e ousadia.

Chamou a atenção do povo, que começou a aproximar-se lentamente, sem saber o que esperar. Esse homem sempre fora meio estranho – totalmente oposto aos demais líderes religiosos da época. Quando falava, encontrava pouca ressonância entre os ouvintes.

Sua mensagem contradizia tudo o que era tradicional e popular. O desafio de sair de cima do muro e definir-se por um ou por outro, ou por Baal, ou por Jeová, deixava quase todos desconfortáveis – preferiam não se comprometer.

Porém, não era um discurso que pretendia fazer. Ele os conduziu a um velho altar, o altar de Jeová. Abandonado há muitos anos, estava em ruínas. Uma por uma, selecionou doze pedras grandes e reedificou o altar caído. Preparou o sacrifício e colocou-o sobre o altar.

De repente, fez algo totalmente inesperado e sem sentido lógico. Ordenou que enchessem quatro tambores de água e a despejassem sobre o sacrifício.

O quê? Ele enlouqueceu? Qualquer um sabe que lenha molhada não pega fogo! Além disso, esse homem estranho não sabia que estavam há três anos sem chuva? Que desperdício insensato desse recurso precioso!

Para piorar, depois de seguirem suas ordens, ele ainda pediu que o fizessem novamente – e, depois, uma terceira vez!

Quando tudo estava pronto, ele fez uma oração simples e curta – mas com resultados imediatos: fogo!

Não havia fósforos nem querosene. Nada de truques mágicos, giros ou fingimentos. Somente fogo. Fogo genuíno. Fogo que lambeu a água e consumiu inteiramente o sacrifício, a lenha, as pedras – até o pó no chão. Fogo do céu. Fogo de Deus.

O que é o fogo de Deus?
Não existe na Igreja hoje uma necessidade maior do que a necessidade que ela tem do fogo de Deus. Quando falamos sobre o fogo de Deus, estamos nos referindo à manifesta presença de Deus e à sua glória. Estamos falando sobre o poder sobrenatural de Deus.

Estamos falando sobre reuniões que não são apenas reuniões “boas” com boa música e boas pregações. Estamos falando sobre resultados que não podem ser explicados em termos de esforço humano. Estamos falando sobre aquilo que o homem não consegue programar, manipular, planejar ou fazer acontecer.

Estamos falando sobre algo que vai além da ação normal do Espírito Santo no meio do seu povo. Estamos falando sobre o derramamento extraordinário do Espírito que revela a glória de Deus nas vidas individuais e na igreja.

O que o fogo faz?
Quando o fogo cai, vemos Deus como ele realmente é. Tanto no Velho quanto no Novo Testamento, Deus é revelado como um Deus de fogo.

No Monte Sinai, onde foi dada a lei, Deus se revelou com relâmpagos, trovões e vozes. No último livro da Bíblia, o apóstolo João recebeu um vislumbre da sala do trono, no céu. Do meio do trono, saíam “relâmpagos, vozes e trovões” (Ap 4.5).

Quando o fogo cai, Deus assume o controle da Igreja. Quando Deus aparece, as pessoas se sentem melhor prostradas no chão do que sentadas nos bancos. Quando o fogo cai, ele consome tudo que não é santo, tudo que é terreno e humano.

O fogo de Deus purifica, separa, derrete e devora, “porque o nosso Deus é fogo consumidor” (Hb 12.29). Deus é como o fogo do ourives (Ml 3.2) que traz impurezas à superfície, expondo-as e consumindo-as.

Quando o fogo cai, o pecado é julgado e tratado de forma meticulosa e radical – não apenas os pecados óbvios da carne, mas os pecados sutis e ocultos do espírito também. As máscaras da respeitabilidade são removidas, os disfarces rasgados e os corações dos homens expostos diante do olhar de um Deus que tudo vê, tudo sabe.

Quando o fogo cai, há profunda convicção e tristeza pelo pecado. O intenso holofote da santidade de Deus faz com que aquilo que antes era aceitável torna-se, de repente, abominável. A indiferença transforma-se em lamentação. A atitude casual para com o pecado é substituída por quebrantamento e arrependimento genuínos.

Quando o fogo cai, os esforços e as obras dos cristãos são provados. Grande parte daquilo que parecia atividade espiritual é revelada como nada mais do que esforço carnal a ser consumido como madeira, feno e palha.

Quando o fogo cai, nossos métodos e programas tradicionais rendem-se ao senhorio de Jesus, e o Espírito Santo começa a presidir as ações e o funcionamento de sua Igreja.

Quando o fogo cai, há poder. Há vida. Há pureza. Há espontaneidade. Há realidade.

Onde está o fogo de Deus hoje? Onde está a evidência de sua presença e poder? Onde está o senso de reverência, de admiração, de assombro e temor na sua presença?

Onde estão as lágrimas de quebrantamento e contrição? Onde se vê pessoas perdidas caindo prostradas, dominadas pela realidade da presença de Deus no meio do seu povo?

Que igreja em sua comunidade é conhecida por ter manifestações do fogo de Deus? Em qual classe de Escola Dominical, em qual família, em qual pai, mãe ou jovem você tem visto o fogo de Deus?

Por que não temos o fogo?
Na maioria dos casos, não temos o fogo de Deus porque não achamos que precisamos dele. Estamos contentes em viver sem a sua glória.

De maneira geral, nosso país, nossas igrejas, lares e vidas estão destituídos da glória e do poder de Deus. Se alguém pergunta sobre nossas necessidades, falamos que precisamos de maiores prédios, mais dinheiro, mais voluntários, uma equipe melhor ou mais equipamentos. Por que não conseguimos enxergar que nossa maior necessidade é do próprio Deus?

Temos pecado contra Deus, e ele retirou sua presença manifesta de nós; no entanto, nossos olhos acostumaram-se com a penumbra. Estamos habituados a funcionar com o próprio esforço. Quando ninguém questiona a autenticidade dos resultados.

Ficamos cegos à nossa verdadeira condição e necessidade espiritual. Como a igreja de Laodiceia, achamos que somos ricos e abastados, que não precisamos de coisa alguma (Ap 3.17).

Ouço líderes cristãos falando que a Igreja está prosperando. Outros insistem que estamos experimentando sucessivas ondas de avivamento.

Se é assim, então por que toda forma de impureza moral continua alastrando-se livremente em nossas igrejas evangélicas, fundamentadas na pregação da Palavra? Por que a taxa de divórcio está tão alta na Igreja quanto no mundo?

Por que a vasta maioria dos cristãos nunca apresenta Cristo a ninguém? Por que as pessoas desejam uma experiência cristã de tempo parcial, de final de semana, que lhes seja conveniente, sem custo real? Por que os pastores precisam usar força e coação para conseguir levar as pessoas a realmente servirem ao Senhor?

Por que divisão nas igrejas é tão comum? Por que tantos que se chamam cristãos são estéreis, vazios, feridos e incapazes de se livraram da escravidão espiritual? Por que o mundo está tão pouco interessado naquilo que temos a oferecer?

Enquanto pensarmos que estamos fazendo tudo certo, nunca clamaremos a Deus para enviar fogo do céu.

Outra razão de não termos o fogo de Deus é que, na verdade, não o queremos. Oh sim, dizemos que queremos, mas geralmente queremos o tipo de fogo que atrai atenção à nossa igreja, que lota os auditórios, aumenta as ofertas e soluciona todos os nossos problemas.

Não queremos o tipo de fogo que consome, destrói, expõe, queima e machuca. Temos medo do que poderia acontecer se Deus aparecesse entre nós. Queremos uma experiência religiosa bem domesticada, fácil de se controlar.

Além disso, não queremos o tipo de pregação que vem antes do avivamento. Tenho observado que as pessoas só querem encorajamento e amor do púlpito. Não querem a verdade!

Pregar sobre pecado, arrependimento, santidade, quebrantamento ou confissão é considerado muito negativo. “Você está colocando uma carga de culpa no povo. Vai destruir sua autoestima”.

Quisera que nos preocupássemos menos com o que as pessoas pensam de si mesmas e mais com o que pensam de Deus! Enganados pelo mundo, seguimos uma teologia egocêntrica muito mais voltada à nossa autoimagem do que à imagem de Deus.

Não temos o fogo de Deus porque não acreditamos que ainda existe esse tipo de coisa hoje. Para justificar nossa impotência, temos usado a interpretação de dispensações para tirar o efeito de grande parte da Palavra de Deus. “Isso é Velho Testamento!” “Deus não age mais dessa forma hoje.”

Um estudo sério da história de avivamentos mostra que todo avivamento é, de certa forma, uma repetição do que aconteceu no dia de Pentecostes. O Espírito é derramado sobre seu povo de maneira extraordinária, e a manifesta presença e poder de Deus são liberados.

Entretanto, no nosso afã de evitar os excessos e abusos de certos movimentos, temos negado totalmente a possibilidade de um derramamento sobrenatural do Espírito Santo. Não oramos por milagres porque acreditamos que Deus não opera mais como no passado!

Finalmente, não temos o fogo de Deus porque não estamos dispostos a pagar o preço para recebê-lo. Queremos um avivamento instantâneo, sem custo e sem dor. Queremos todos os resultados e benefícios positivos do avivamento com pouco ou nenhum custo para nós.

Queremos lucro sem dor. Queremos a alegria do nascimento de nova vida sem passar pelas dores de parto. Queremos cura sem cirurgia. Queremos alegria sem choro.

Queremos entrar no poder da ressurreição sem antes passar pela agonia da cruz. Queremos manter nossos cronogramas e programas e instituições, exatamente como estão. Queremos o mínimo de interferência com nossos planos ou tradições.

O avivamento envolve um processo – primeiro para arar o terreno endurecido e abandonado do coração, depois plantar a semente e, finalmente, fazer a colheita. Arar é um processo doloroso, mas não pode ser ignorado, e exige bastante tempo.

Sim, o tempo é uma parte inevitável do preço. Mini-avivamentos de final de semana podem ser mais convenientes para caber na agenda, mas dificilmente resultarão em avivamentos genuínos.

Elias passou por um processo de preparação e purificação durante três anos e meio antes de Deus enviar o fogo. E o povo de Israel precisou sofrer as consequências de seus pecados durante esse mesmo período, até ficar desesperado o suficiente para Deus enviar o fogo.

Estamos todos ocupados demais para ouvir Deus. Deus se encontra com aqueles que esperam por ele (Is 64.4), mas preferimos que ele envie o fogo dentro do nosso cronograma. E é melhor que consiga concluir tudo antes do meio-dia!

Querido amigo, Deus simplesmente não aceitará ser encaixado em nossos planos, nossa agenda ou nosso cronograma. Ele é Deus! Precisamos dar a ele a liberdade de agir conforme deseja, de acordo com seu próprio cronograma.

Se Deus vai enviar fogo, precisamos estar dispostos, se necessário, a descartar nossas tradições humanas, nossos métodos, estruturas e programas e dar espaço para ele. Não é que tais coisas são erradas em si mesmas, mas tornaram-se ídolos para a maioria de nós. Qualquer coisa que é mais importante para nós do que a presença de Deus faz parte do preço que certamente nos será exigido.

Com certeza, não haverá fogo até que o sacrifício seja oferecido. Para o povo de Israel, significava colocar sua reserva de água no altar. Deus não precisava de água, mas quando lhe deram a reserva de água, deram suas próprias vidas. Era isso que ele queria desde o princípio.

Não sei que tipo de sacrifício Deus poderá pedir de você ou da sua igreja. Pode ser que ele peça que entregue a sua reputação. Pode ser que peça que suporte crítica, desentendimento e rejeição da parte de pessoas que são muito importantes para você.

Ele pode pedir que você deixe seu emprego. Pode pedir que coloque as economias de toda sua vida ou o fundo de aposentadoria no altar.

Em última análise, o que Deus realmente quer é nossa vida inteira. Quando Deus a recebe no altar, então, e só então é que ele enviará fogo do céu para revelar seu poder a um mundo que está esperando e duvidando.

Fonte: Arauto Ano 27 nº 2 - Março/Abril 2009

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