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terça-feira, 18 de maio de 2010

Transformação, testemunho e diálogo - Carlos Eduardo B. Calvani - parte 7

Transformação, testemunho e diálogo: reflexões missiológicas a partir de Tillich - Carlos Eduardo B. Calvani - parte 7 (última)

Pistas para uma reflexão missiológica

Nos estudos atuais sobre o relacionamento do cristianismo com outras religiões há, pelo menos três diferentes atitudes que têm sido identificadas como “exclusivismo, inclusivismo e paralelismo”. O exclusivismo se funda sobre um conceito de verdade que reduz a revelação e a salvação de Deus à linguagem e às formas unívocas da tradição cristã. O clássico axioma extra ecclesiam nulla salus (fora da Igreja não há salvação) traduz muito bem essa posição no campo católico. No campo evangélico, essa posição se expressa na missiologia do Pacto de Lausanne e na perspectiva fundamentalista da escola de missões do Seminário Fuller. A posição inclusivista descobre valores positivos e verdades fora da própria tradição religiosa e procura reduzir as diferenças (J. Daniélou, H. de Lubac, Karl Rahner), mas está constantemente sob o risco de degenerar em hybris, devido à pretensão explícita de ter o privilégio do julgamento final e dos critérios claros de discernimento do que ocorre nas outras religiões. Conforme Panikkar, “a partir do momento em que é só você quem tem o privilégio de uma visão que abarca tudo, e de uma atitude tolerante, é você quem determina o posto que os outros devem assumir no universo”. No paralelismo (Paul Knitter, John Hick, Hans Küng), as religiões correm caminhos paralelos rumo ao mesmo fim (telos) onde todas se encontrarão. O caminho de cada religião deve ser respeitado e não sofrer interferências externas. É uma posição que “evita sincretismos e ecletismos que tentam harmonizar as religiões entre si, ao mesmo tempo em que assume uma posição tolerante e de respeito pela religião do outro”.
A posição de Tillich certamente não é exclusivista e também não chega ao paralelismo, pois ele sempre retorna a Cristo como a manifestação plena do Novo Ser e critério para cristãos e não-cristãos. Talvez prefiram classificá-lo como “inclusivista”. Essa atitude pode ser identificada no segundo texto que analisamos de Tillich, particularmente no capítulo que propõe o diálogo entre cristianismo e budismo. Ali, o teólogo pressupõe conhecer com relativa segurança a teologia budista do Nirvana e, em todas as suas comparações, o símbolo cristão do Reino de Deus sempre prevalece como superior ao símbolo do Nirvana. Sem referir-se especificamente a Tillich ou ao texto em questão, Bartholo afirma: “essa soberba inclusivista é a pretensão do crente ser proprietário de uma verdade plena e absoluta e, portanto, apto a identificar nos outros, mas nunca em si mesmo, apenas verdades parciais e relativas”. Mas é preciso reconhecer que Tillich é coerente com sua convicção de que o poder salvífico de Deus se manifestou plenamente em Jesus como o Cristo. Esse poder, quando reconhecido e aceito pelos seres humanos, causa impactos decisivos na vida pessoal e social, criando a Comunidade Espiritual manifesta, que se tornará, por suas palavras e atos, testemunho e representação do Reino de Deus.

Embora critique o inclusivismo, algumas afirmações de Panikkar podem nos ajudar a compreender melhor Tillich. Panikkar reconhece, por exemplo, que a vivência religiosa está no campo das paixões e adesões pessoais e não das escolhas racionais e, por isso, toda epoché fenomenológica que pretenda colocar “entre parêntesis” a própria fé no momento do diálogo, se revela fonte de erro e falsidade. Para Pannikar, a epoché inclusivista seria “psicologicamente impraticável, fenomenologicamente inapropriada, filosoficamente carente, teologicamente débil e religiosamente estéril”. Isso talvez explique a fragilidade do pretenso “diálogo” cristão-budista esboçado por Tillich.

Que contribuições os missiólogos podem extrair das observações de Tillich e da discussão atual sobre paralelismo, inclusivismo ou exclusivismo?

Recentemente foi publicada no Brasil a obra de um dos mais conhecidos e respeitados missiólogos de nosso tempo, o sul-africano David Bosch. Em muitos pontos, a obra de Bosch aproxima-se da perspectiva tillichiana, sobretudo em sua pressuposto básico de que a fé cristã é uma fé missionária com uma perspectiva intrinsecamente universal e ecumênica. Bosch argumenta que o evangelho é universal, que Deus é missionário e a missio Dei (singular) antecipa, fundamenta e critica as missiones ecclesiae (plural). Nessa perspectiva, a Igreja perde seu lugar de relevo e passa a um “segundo plano” porque se reconhece como realidade descentrada de si e concentrada no Reino.

As atividades missionárias levadas a cabo pela igreja devem estar submetidas ao propósito maior do reinado de Deus no mundo. Isso significa que é preciso falar primeiro de Reino de Deus e só depois da Igreja, enfatizar o caráter escatológico da missão e o papel provisório da igreja como agente do reino. Na América Latina, a chave hermenêutica para compreender a missão, não é a igreja enquanto instituição, mas o reinado de Deus. A igreja não inicia nem controla a missão de Deus, pois ela é, também, resultado dessa missão. Portanto, a implantação de igrejas em todos os lugares ou o crescimento da denominação numa sociedade, por mais desejável que seja, não é o fim último da missão. O mandato de Jesus é “ide e pregai...” e não “ide e implantai igrejas”.

Outro ponto de contato entre Bosch e Tillich é a defesa de que Deus continua a realizar a nova realidade que foi inaugurada e manifesta na vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus Cristo – o seu reinado de vida, amor, dignidade, justiça e paz. Embora esse reinado pareça oculto, está presente na história como fermento, sal e luz em diversos grupos. A igreja participa na missão de Deus na medida em que busca identificar os sinais atuais do reinado de Deus agora e para sempre. A igreja-em-missão é um sinal da intenção de Deus para a humanidade e a criação, “ela é chamada a encarnar, já no aqui e agora, algo das condições que hão de prevalecer no reinado de Deus”.

Bosch, tal como Tillich, também dá atenção a um paradoxo incontornável na vida da Igreja em sua missão: o de ser, ao mesmo tempo, uma comunidade exclusiva, com senso de pertença a um reino próprio, mas que deve abrir-se ao mundo num movimento inclusivo. Isso conduz ambos a propor a estratégia do testemunho e do diálogo com adeptos de outras religiões. Novamente, Bosch retoma algumas idéias de Tillich, afirmando que, quando nos predispomos ao diálogo missionário, é preciso aceitar de boa vontade e sem relutância a coexistência de crenças diferentes no mesmo espaço social; que todo diálogo autêntico pressupõe compromisso confessional dos dois lados; que os cristãos devem predispor-se ao diálogo não apenas com a tentativa de vencer uma batalha argumentativa, mas de encontrar o Deus que nos precede, que nos espera e que está preparando pessoas para o contato. Nas palavras de Queiruga, “a missão cristã... chega sempre a uma casa já habitada pelo Senhor e o que faz é oferecer seu novo e plenário modo de compreendê-lo como único e comum a todos”.

Mas Bosch e Tillich concordam também que o diálogo não é um substituto nem um subtefúrgio para a missão. A fé cristã não pode deixar de falar do que vimos e ouvimos e do que nos contaram nossos pais. Ela é intrinsecamente missionária, universal e inclusiva, embora não absoluta: “Conhecemos apenas em parte, mas conhecemos. E cremos que a fé que professamos é tanto verdadeira quanto justa e deve ser proclamada. Não o fazemos, todavia, como juízes ou advogados, mas como testemunhas; não como soldados, mas como mensageiros da paz; não como vendedores persuasivos, mas como embaixadores do Senhor Servo”.

Um dos efeitos do fenômeno da globalização foi colocar em contato bastante próximo pessoas de diferentes orientações religiosas numa mesma sociedade. A despeito da supremacia histórica do cristianismo católico no Brasil, as religiões indígenas e africanas nunca foram completamente extintas, mas sobreviveram, em alguns casos com adaptações sincréticas. No século XX o protestantismo que aqui se implantou acompanhava o otimismo do Atlântico-Norte, propondo “a evangelização do mundo nesta geração” e grupos mais pentecostais pretendiam salvar “o Brasil para Cristo”. Esses diferentes empreendimentos cresceram, se solidificaram e se estabeleceram na sociedade, mas o mundo não foi evangelizado no século XX e tampouco o Brasil se converteu para Cristo. Algumas dessas comunidades protestantes e pentecostais transformaram-se em espécies de abrigos para refugiados que não se sentem à vontade num mundo que passa por rápidas mutações. No final do século XX, o fenômeno neopentecostal cresceu bastante, propondo um tipo de cristianismo diferente dos conhecidos até então.

Nos últimos anos, as igrejas protestantes tradicionais no Brasil passaram a falar muito em missão. Houve até mesmo uma febre de “conferências missionárias” em todas as denominações, inclusive na IEAB com a Confelíder. Porém, a boa intenção missionária de alguns organizadores às vezes era contaminada pelo interesse de outros no crescimento denominacional. Em muitos casos, o conceito de missão permanecia subordinado ao objetivo do crescimento e expansão da igreja cristã. Isso acaba servindo muito bem para bispos, pastores e líderes personalistas que conseguiram multiplicar o número de membros de suas paróquias e dioceses que fazem dos números, armas ideológicas para criticar regiões da igreja onde a ênfase não é o crescimento quantitativo, mas o testemunho evangélico e o acompanhamento pastoral como sinais do Reino.

O conceito teológico “Reino de Deus” merece ser mais aprofundado por todos, pois ele é o referencial da missão. Toda e qualquer discussão sobre missões deve ser impulsionada pelo objetivo da proclamação do Reino (com suas implicações políticas, sociais e universais) e o testemunho da Presença Espiritual e não na Igreja. A criação de comunidades cristãs filiadas a uma denominação cristã deve ser esperada como uma conseqüência da missão, e não exigida como objetivo, porque a igreja não vive para si, mas para os outros em prol do Reino. Em alguns casos, o compromisso com o Reino, ao invés de produzir crescimento do grupo, poderá levá-lo à extinção. O critério para medir o grau de fidelidade de um grupo cristão ao Evangelho não é a expansão e o crescimento. Já observei, alhures, que “se usarmos esse mesmo critério para algumas comunidades neotestamentárias, verificaremos que muitas delas não conseguiram sobreviver às perseguições em algumas cidades. Simplesmente foram extintas à força da espada ou tiveram que se mudar em movimentos migratórios de fuga para outras regiões menos hostis. Tais fatos não desqualificam em nenhum momento o grau de fidelidade daquelas igrejas a Cristo. Ao contrário, algumas comunidades acabaram porque acompanhavam o fluxo do sangue dos mártires. Sua fidelidade residia exatamente no martírio e na morte, como grão que morre debaixo da terra para produzir vida. A morte de algumas comunidades não significa a morte do cristianismo”.

A missão deve ser a contínua atividade da igreja no mundo, identificando a ação salvadora e libertadora de Deus que produz vida, unindo-se a ela e fortalecendo-a, mesmo quando essa ação está sendo empreendida e vivida por grupos não-cristãos. Em termos aristotélico-tillichianos, seria o encontro da “comunidade manifesta” com a “comunidade latente”. Esse encontro enriquecerá ambos e poderá levar a “comunidade latente” a encantar-se com o testemunho de amor, serviço e justiça da comunidade manifesta, feitos em nome e no poder de Jesus Cristo. Isso não significa que não seja mais necessário evangelizar explicitamente. Quem foi impactado pelo poder salvífico do Novo Ser em Jesus enquanto o Cristo, sempre se sentirá motivado a compartilhar as bênçãos da salvação. Mas o processo de crescer no conhecimento e amor de Cristo nos universaliza a ponto de sairmos ao mundo com a boa notícia de que Deus está em toda parte, em missão, criando comunidades espirituais que sejam sinais do seu Reino. Quando a missão se torna testemunho em favor do Reino, “a Igreja não perde sua singularidade e importância, mas é provocada a viver sua identidade com um novo estilo, em que a dinâmica do testemunho e do serviço passa para um plano de maior importância”.

A partir de Tillich, podemos identificar grandes desafios para a missão transformadora hoje. Alguns grupos cristãos ainda se preocupam muito em investir energias no trabalho missionário junto a povos não-cristãos (culturas orientais, indígenas, africanas, etc), mas pouco fazem contra as “quase-religiões”. No seu tempo, Tillich as identificava no fascismo, nazismo e comunismo, em todo totalitarismo político de pretensões globais. Hoje costumamos falar em “religião do mercado” e estamos sempre dispostos a denunciar seus efeitos visíveis no desemprego e miséria. A religião do mercado é idolátrica porque faz do dinheiro e da prosperidade o seu deus. Mas há muitos grupos cristãos que se aliaram ao mercado. Boa parte das grandes agências missionárias tem aplicações no mercado financeiro, sem contar os grupos cristãos que associam evangelho com prosperidade. Não deveriam eles também ser alvo de nosso testemunho missionário de serviço, desprendimento, justiça e solidariedade?

Essas reflexões oferecidas para discussão não têm como objetivo esfriar o ardor missionário de nenhum grupo, nem tampouco menosprezar o dever de proclamar a salvação em Jesus Cristo. Ele, o Logos que ilumina todo ser humano e que nos transforma dia-a-dia à sua semelhança, é uma boa notícia que deve ser ouvida por todos. E sob a inspiração do seu poder, comunidades podem ser criadas para preservarem sua memória, nutrirem-se de seu corpo e sangue, anunciarem e viverem o Reino, pois esse era o conteúdo central da mensagem de Jesus.

Extraído do site Aviva Missões.

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