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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Transformação, testemunho e diálogo - Carlos Eduardo B. Calvani - parte 6

Transformação, testemunho e diálogo: reflexões missiológicas a partir de Tillich - Carlos Eduardo B. Calvani - parte 6

Missão como aprofundamento na mística e despertamento da profecia

O quarto texto no qual Tillich nos oferece algumas impressões a respeito do relacionamento do cristianismo com as outras religiões é o último artigo por ele escrito, uma conferência apresentada em 12/10/1965 para um simpósio sobre história das religiões, organizado por Mircea Eliade na Universidade de Chicago. [30] É um texto relativamente curto, no qual Tillich, logo no início, evita duas possíveis abordagens sobre esse tema: a dos teólogos que rejeitam todas as demais religiões, com exceção daquela da qual ele é teólogo (exemplifica citando Barth e Brunner) e a dos teólogos radicais da secularização. Ele usa a expressão “teologia-sem-Deus”, referindo-se, provavelmente, a um movimento que fez certo estardalhaço nos círculos norte-americanos da década de sessenta e que ficou conhecido como “Teologia da morte de Deus”, “Teologia do ateísmo cristão” ou simplesmente “Teologia radical”. Os mais conhecidos representantes desse círculo são Paul van Buren, William Hamilton, Gabriel Vahanian e Thomas Altizer. Há quem associe também Harvey Cox a esse movimento, sobretudo por seu livro The Secular City. Os pressupostos anunciados por Tillich no início da conferência são os seguintes:1. As experiências revelatórias são universalmente humanas. Existe revelação em todas as religiões porque Deus sempre deu testemunho de si mesmo;

2. O ser humano recebe a revelação no contexto de sua finitude humana. Devido a nossas limitações biológicas, psicológicas e sociológicas, a recepção dessa revelação sempre será distorcida, especialmente se a religião toma a revelação como um meio para atingir um fim e não como um fim em si mesma;

3. Não há experiências revelatórias isoladas na história humana, mas todo um processo revelatório, no qual os limites da adaptação e os erros da distorção estão sujeitos à crítica mística, profética e secular.

4. Pode haver um acontecimento central na história das religiões que uma os resultados positivos das diferentes recepções da revelação. Tal acontecimento possibilitaria uma teologia concreta de significado universal.

5. A história das religiões não se desenvolve dentro da história da cultura, mas em seus subterrâneos, ou em suas profundezas.

Para Tillich, o teólogo que aceita esses pressupostos poderá defender, com seriedade, a importância da história das religiões para a teologia contra os representantes das duas abordagens supracitadas (a barthiana e a da teologia radical), embora possa - e deva! - aceitar a crítica da secularização. O teólogo deve, também, assumir o fato de que a religião, como uma estrutura de símbolos intuitivos e ativos (que implica em mitos e ritos) estará sempre presente na história humana, mesmo nas culturas mais secularizadas, pois o espírito sempre busca corporificar-se, a fim de se manifestar como algo concreto e efetivo. Essa atitude implica em enfrentar com seriedade a ortodoxia exclusivista e o secularismo radical, porque ambos são reducionistas e tendem a eliminar todos os elementos religiosos do cristianismo, com exceção, talvez, da pessoa de Jesus – “o grupo neo-ortodoxo faz de Jesus o único lugar onde se pode ouvir a palavra da revelação; o grupo secular procede do mesmo modo, transformando-o no mais perfeito representante da secularização. Trata-se de uma redução drástica tanto da imagem como da mensagem de Jesus. Esta se limitaria a ser uma corporificação do chamado ético ou de uma função social e, por conseguinte, isso seria a única coisa que restaria da mensagem de Cristo”.

Ao mesmo tempo em que rejeita a visão ortodoxa tradicional de que as religiões não-cristãs são perversões de uma espécie de revelação original, carentes de valor para a teologia cristã por não serem portadoras da revelação ou da salvação, Tillich busca um ponto de equilíbrio entre a valorização positiva da revelação universal e a crítica secular. Ele reconhece a influência positiva em seus tempos de estudante da antiga Escola da História das Religiões, que lhe mostrou como a tradição bíblica foi enriquecida pelas religiões pagas e lhe abriu os olhos para compreender a revelação progressiva na história rumo ao kairos, a plenitude do tempo, com a manifestação de Jesus como o Cristo. Isso lhe abre a brecha para levantar a pergunta sobre a existência de outros kairoi na história das religiões.

Tillich chama sua abordagem de “dinâmico-tipológica”, reconhecendo que “não existe (na história) um desenvolvimento progressivo que evolua de maneira constante, mas há elementos da experiência do Sagrado que sempre estão presentes”. Quando esses elementos predominam numa cultura, criam um estilo religioso particular. Por isso, todas as religiões repousam sobre uma base sacramental: a experiência do Sagrado em seu caráter misterioso.

Mas há também um segundo elemento, presente em muitas religiões, a saber, tendências críticas contra a demonização do sacramental, transformando-o em objetos manipuláveis. O primeiro desses elementos críticos é o místico, ou seja, a recusa a conformar-se com expressões concretas do Último, do Transcendente. Todos os movimentos místicos compreendem as corporificações culturais do Sagrado como secundárias e busca transcendê-las rumo ao mais elevado, ao Último. Outro elemento é o profético que rejeita a sacramentalização por causa de suas conseqüências demoníacas, tais como a negação da justiça em nome da santidade. Mas Tillich reconhece que se o elemento profético suprimir totalmente o sacramental e o místico, se transformará em puro moralismo e secularismo. Por isso, é preciso unir esses três elementos (sacramental, místico e profético) numa religião que não se identifica com nenhuma das religiões particulares, nem mesmo o cristianismo e que ele chama “Religião do Espírito Concreto”.

Apesar da hesitação em identificar essa tal “Religião do Espírito Concreto” com o cristianismo, Tillich refaz o mesmo movimento de avanço-e-retrocesso do texto Le Christianisme et les religions. Dá um grande passo macro-ecumênico e, de repente, retorna ao particularismo cristão: “Atrevo-me a dizer (logicamente, na qualidade de teólogo protestante) que não existe exemplo maior de uma síntese desses três elementos que a doutrina paulina do Espírito. Ali temos os dois elementos fundamentais: a união do extático e do racional. Há êxtase, mas sua expressão máxima é o amor no sentido de ágape. Há êxtase, mas sua outra criação é a gnosis, o conhecimento de Deus”.

Assim, toda história da religião é contemplada a partir daí: uma luta em prol da Religião do Espírito Concreto; uma luta de Deus a partir da religião e contra ela. Como cristãos, vemos a vitória decisiva dessa luta na manifestação de Jesus como o Cristo e em sua vitória na cruz e ressurreição sobre os poderes demoníacos. Esse seria o critério maior do cristianismo - a própria cruz de Cristo: “Aquilo que se produziu ali de maneira simbólica, que nos outorga o critério, também ocorre, de modo fragmentário, em outros lugares, em outros momentos, e continuará acontecendo mesmo quando estes outros lugares não estejam conectados histórica ou empiricamente com a cruz”. A partir dessas pistas, Tillich finaliza sua conferência anunciando seu desejo de reconstruir sua Teologia Sistemática a partir do diálogo inter-religioso e não mais a partir do confronto com os poderes da secularização. Essa era sua esperança quanto ao futuro da teologia.

A “Religião do Espírito Concreto” seria o telos da história das religiões, de características teônomas. É a unidade do que foi descrito como “elementos” na experiência do Sagrado (a base sacramental, o elemento místico e o profético). Embora nessa palestra, Tillich afirme que ela não se confunde com o cristianismo, sabemos que em outra palestra anterior, nunca publicada ele tenha sugerido que o Cristianismo é a única religião que combina esses três elementos.

Sempre é possível aprender algo de Tillich. Nessa que foi sua última palestra, a principal contribuição para os missiólogos está na defesa de que as experiências revelatórias a partir das quais nascem as religiões são universalmente humanas e que é preciso identificar a revelação em todas as religiões porque Deus sempre deu testemunho de si mesmo; a recepção e transmissão cultural dessa revelação, porém, sempre permanecerá distorcida devido às limitações humanas. Resta, então, ao missionário cristão em contato com outras religiões, evitar o confronto teológico e dialogar a partir de dois pólos: o místico e o profético. Ou seja, aprofundar-se na própria mística cristã, a fim de perceber que, no seu conteúdo último, a experiência mística cristã não difere da experiência mística de outra religião e, ao mesmo tempo, identificar e valorizar os elementos proféticos da outra religião.

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