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sábado, 15 de maio de 2010

Transformação, testemunho e diálogo - Carlos Eduardo B. Calvani - parte 5

Transformação, testemunho e diálogo: reflexões missiológicas a partir de Tillich - Carlos Eduardo B. Calvani - parte 5

Missão como representação do Reino de Deus

Cronologicamente, o terceiro texto que nos interessa é o terceiro volume da Teologia Sistemática, publicado em 1963, onde ele trata daquilo que, tradicionalmente chamamos pneumatologia, eclesiologia e escatologia. É na parte II, intitulada “A Presença Espiritual”, que encontramos algumas referências missiológicas. O argumento é construído da seguinte maneira: o Espírito é a resposta às ambigüidades da vida (sejam individuais ou comunitárias). A Presença Espiritual se manifesta no espírito humano, levando ao reconhecimento do Novo Ser em Jesus enquanto o Cristo e cria a Comunidade Espiritual, que vive sob o impacto criativo desse evento central. Essa comunidade é “invisível”, “escondida”, “aberta somente à percepção da fé”, mas apesar disso real, irresistivelmente real (TS: 500). Porém, essa comunidade não é idêntica às igrejas cristãs. Essa Comunidade está latente antes do encontro com a revelação central, e está manifesta depois desse encontro e do reconhecimento do Novo Ser em Jesus enquanto o Cristo. “As igrejas representam a Comunidade Espiritual numa auto-expressão religiosa manifesta, enquanto que os outros representam a Comunidade Espiritual em latência secular” (TS: 502). Esses “outros” são “alianças de jovens, grupos de amizade, movimentos educacionais, artísticos, políticos, e mesmo de forma óbvia, indivíduos, sem qualquer relação visível uns com os outros nos quais é sentido o impacto da Presença Espiritual, embora sejam indiferentes ou hostis às expressões visíveis de religião. Eles não pertencem a uma igreja, mas não estão excluídos da Comunidade Espiritual”. (TS: 502).Num capítulo anterior, Tillich já tratara da “Presença Espiritual e a antecipação do Novo Ser nas religiões”. Ele retoma agora as mesmas idéias, argumentando em favor de uma Comunidade Espiritual “latente” no povo de Israel, no islamismo, nas comunidades adoradoras dos grandes deuses mitológicos, nos grupos sacerdotais esotéricos, no misticismo clássico da Ásia, etc. O estado é de latência porque “o critério último, a fé e o amor do Cristo ainda não apareceu àqueles grupos... eles são dirigidos inconscientemente ao Cristo, mesmo quando o rejeitam caso ele seja apresentado a eles mediante a pregação e as ações das igrejas cristãs” (TS: 503).

Como se dá o relacionamento entre os membros da Comunidade Espiritual manifesta (os cristãos) e os da Comunidade Espiritual latente? A resposta é dada de modo bastante natural: “Toda vez que membros da igreja se encontram com aqueles que estão fora da igreja, são missionários da igreja, voluntária ou involuntariamente. Seu próprio ser é missionário” (TS: 532). Trata-se aqui, muito mais de testemunho visando a transformação daquela Comunidade Espiritual latente em Comunidade manifesta.

Tillich reconhece, porém, que é difícil para qualquer igreja separar a mensagem cristã da cultura particular dentro da qual é pregada. “Num certo sentido é impossível, porque não existe mensagem cristã abstrata. Ela está sempre incorporada a uma cultura particular” (TS: 553). Em todo caso, há de ser sempre um esforço pautado pelo reconhecimento prévio de todo cristão de que não se dirige aos não-cristãos para levar-lhes algo que não tenham, mas em testemunhar em amor e serviço, o poder do Novo Ser manifesto em Jesus, a fim de que os “cristãos latentes” o reconheçam. É uma posição semelhante à esboçada por Karl Rahner, da “presença de Cristo nas religiões”. Mas não é idêntica, pois o conceito de Rahner mais popularizado foi o de “cristãos anônimos” - todos que aceitam livremente a oferta da autocomunicação de Deus, mediante a fé, a esperança e a caridade, mesmo que do ponto de vista social (através do batismo e da filiação à Igreja) e de sua consciência objetiva (através de uma fé explícita, nascida da escuta da mensagem cristã) não tenham formalmente assumido o cristianismo. Porém, Tillich aqui evita usar o termo “cristãos latentes” ou mesmo “Igreja latente”, como fizera no primeiro artigo citado. Ou seja, nessa parte da Teologia Sistemática não há uma identificação tão clara e explícita da Comunidade Espiritual manifesta com as igrejas cristãs, mas sim com o reconhecimento do Novo Ser em Jesus enquanto o Cristo, embora na parte V, essa identificação volte a ocorrer parcialmente. Outra diferença está no fato de que, a posição de Rahner foi acusada de comodista por von Balthasar, por esquivar-se da tarefa missionária, enquanto que, para Tillich, trata-se de um elemento imprescindível da Comunidade Espiritual nascida do Pentecostes - “o impulso missionário daqueles que foram tomados pela Presença Espiritual. Era-lhes impossível não passar adiante a mensagem daquilo que lhes tinha acontecido, a todo mundo, porque o Novo Ser se a humanidade como um todo e mesmo o próprio universo não estivessem incluídos nele. À luz do elemento de universalidade no relato de Pentecostes devemos dizer que não existe Comunidade Espiritual sem abertura a todos os indivíduos, grupos e coisas e o impulso de incorporá-los a si” (TS: 501).

Na Teologia Sistemática temos então um movimento que evita centralizar a posse da mensagem salvífica na Igreja. Essa mensagem é o poder do Novo Ser em Cristo, capaz de vencer as ambigüidades da religião, da cultura e da moral e oferecer fragmentariamente (embora de modo real) a vitória sobre as diversas marcas da alienação através da regeneração (participação no Novo Ser), justificação (aceitação por parte Novo Ser) e santificação (transformação pelo Novo Ser). Essas palavras são definidas por Tillich da seguinte maneira: “Regeneração... é o novo estado de coisas, o novo eon, que foi trazido pelo Cristo; o indivíduo ‘entra’nele, e ao fazê-lo, ele próprio participa dele e é renascido mediante essa participação... regeneração e conversão, entendidas nesse sentido, tem pouco coisa em comum com a tentativa de criar reações emocionais apelando ao individuo em sua subjetividade. Regeneração é o estado de haver sido transportado para a nova realidade manifesta em Jesus como o Cristo. As conseqüências subjetivas são fragmentárias e ambíguas e não constituem a base para reivindicar participação no Cristo. Mas a fé que aceita Jesus como o portador do Novo Ser é essa base” (TS: 380). Justificação “significa literalmente, ‘tornar justo’, a saber, tornar o homem aquilo que ele é essencialmente e do qual está separado... é um ato de Deus que não é dependente do homem, um ato pelo qual Ele aceita aquele que é inaceitável... não existe nada no homem que obrigue Deus a aceitá-lo. Mas o homem deve aceitar exatamente isso. Ele deve aceitar que é aceito; ele deve aceitar a aceitação. E a questão é: como é possível isso, apesar da culpa que o torna hostil a Deus? A resposta tradicional é: ‘por causa de Cristo’”. (TS: 381). Santificação, “é o processo no qual o poder do Novo Ser transforma a personalidade e a comunidade, dentro e fora da Igreja” (TS: 382).

Qual seria então a função das igrejas enquanto Comunidades Espirituais manifestas, que reconhecem o poder salvífico de Deus em Cristo e que vivem desse poder? Algumas pistas são dadas na parte V da Teologia Sistemática, seção II.B.1. As igrejas são representantes do Reino de Deus na história. O símbolo “Reino de Deus” é, para Tillich, “o mais importante e o mais difícil do pensamento cristão e um dos mais críticos, tanto para o absolutismo político quanto eclesiástico” (TS: 658). É um símbolo de conotações políticas, sociais (inclui as idéias de paz e justiça), pessoais (confere sentido eterno ao indivíduo com a promessa de participar das bênçãos desse reino) e universais (não é um reino apenas para os seres humanos, mas envolve a realização da vida sob todas as dimensões). As igrejas, para Tillich, são representantes do Reino de Deus na história, apesar de todas as ambigüidades eclesiásticas: “A representação do Reino de Deus pelas igrejas é tão ambígua como a incorporação da Comunidade Espiritual nas igrejas”. (TS: 671).

Aqui são necessários alguns esclarecimentos que lançam luzes sobre o relacionamento entre cristãos e não-cristãos. Tillich argumenta que “não existiam igrejas manifestas antes da manifestação central do Novo Ser no evento sobre o qual se baseia a igreja cristã, mas havia e há igreja latente em toda a história, antes e depois desse evento... portanto, se dizemos que as igrejas são forças de vanguarda no impulso em direção à plenitude da história, devemos incluir a igreja latente nesse julgamento. E podemos dizer que o Reino de Deus na história é representado por aqueles grupos e indivíduos em que a igreja latente é efetiva” (TS: 672). Isso significa que, todo movimento missionário cristão em direção a grupos não-cristãos implica na abertura para que também sejamos abençoados pela Presença Espiritual nesses grupos.


Um comentário:

  1. Gilson,
    parabéns pelo seu blog. Mais do que um veiculo de Comunicação missionária, o seu blog é uma "ATITUDE". Por isso, parabéns pela atitude e por tudo o que essa (sua) atitude representa para o Reino.

    Eu sou Austri Junior, e utilizei do seu blog, os textos do Calvani (Reflexões Missiológicas de Tillich), e do Zabatiero (Missões segundo o modelo de Jesus Cristo), sempre citando a fonte, que é o seu lindo e maravilhoso blog.

    Fui aluno do Calvani e do Zabatiero, e hoje sou muito mais que isso, sou discípulo (Acadêmico-Teológico) desses dois ícones da Teologia Brasileira.

    O meu Blogue chama-se TEOLOGIA E SOCIEDADE - http://circuloteologico.blogspot.com

    Muito obrigado, um gd abç, o Senhor abençoe e guarde a ti e a tua casa, te dê força, coragem, inspiração, audácia e atitude sempre, para trabalhar na construção do Reino onde que que seja.
    Paz e Bem!

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