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Transformação, testemunho e diálogo - Carlos Eduardo B. Calvani - parte 3

Gilson Moura | 13.5.10 | Deixe seu comentário

Transformação, testemunho e diálogo: reflexões missiológicas a partir de Tillich - Carlos Eduardo B. Calvani - parte 3

Missão entre a apologética e o diálogo inter-religioso. (parte 1)

O segundo texto no qual Tillich tece considerações missiológicas é um pequeno livro que reúne quatro palestras (“Bampton Lectures”) apresentadas em 1961 na Universidade de Columbia em 1962. Não é um texto específico sobre missiologia, mas sobre o relacionamento do cristianismo com outras religiões. Os comentários seguintes são baseados na edição em francês .

O primeiro capítulo, intitulado La situation présente: Les religions, Les quase-religions et leurs affrontements, tem como ponto de partida o conceito específico de religião desenvolvido anteriormente por Tillich, como a condição de estar tomado por uma preocupação última que ofereça resposta à questão do sentido da vida. Essa preocupação comporta uma seriedade incondicional e exige o sacrifício de toda preocupação preliminar. A designação religiosa mais comum para o conteúdo de tal preocupação é o termo “Deus”, seja um Deus ou deuses. A partir daí, ele observa que, em nosso mundo, essa preocupação se expressa em diferentes formas, nas religiões mono ou politeístas, nas religiões “não-teístas” e nas “quase-religiões”. Na sua opinião, o que caracterizava a situação das grandes religiões do mundo em sua época era o fato de terem que conviver e enfrentar as “quase-religiões” como os nacionalismos fascistas e o comunismo que exigiam aceitação incondicional e absoluta de símbolos escatológicos que negam suas próprias ambigüidades e distorções, como o Reino de mil anos do 3o Reich ou a sociedade sem classes, por exemplo: “considero o nacionalismo sob a forma radicalizada de fascismo e o socialismo sob a forma radicalizada de comunismo, como os exemplos mais significativos de movimentos quase-religiosos em nosso tempo”. Deve ser lembrado, porém, que a crítica de Tillich ao comunismo soviético e chinês nunca anulou suas firmes convicções socialistas, declaradas desde sua inserção no movimento do Socialismo Cristão quando ainda morava na Alemanha.
Tillich analisa o desenvolvimento tecnológico e o secularismo como armas principais da ofensiva das “quase-religiões” contra as religiões tradicionais, por sua capacidade de enfraquecer tradições culturais e religiosas e cita, como exemplos, o desenvolvimento técnico-industrial do Japão e o fascismo japonês, referindo-se, naturalmente, à aliança japonesa com a Alemanha e a Itália na 2a guerra mundial e, mais à frente, o surgimento do nacionalismo indiano. Nos anos seguintes, o nacionalismo e o desenvolvimento tecnológico cresceram muito na Índia e no Paquistão. Apesar da pobreza extrema da maior parte da população, Índia e Paquistão fazem parte do restrito grupo de países com arsenal atômico e convivem em estado de permanente tensão política. No caso do secularismo, seu efeito cultural mais visível é a indiferença religiosa. As religiões tradicionais perdem seu vigor e se enfraquecem em uma de suas funções sociais que é dar coesão e unidade ao grupo. A conseqüência desse processo é que as práticas religiosas passam para o âmbito privado, sendo compartilhadas por pequenos grupos. Assim, o caminho fica preparado para as “quase-religiões” que se oferecem para preencher o vazio das tradições religiosas, exaltando a um nível absoluto, valores necessários à auto-estima de todo grupo social, como a idéia de Nação. Ele observa que, na época pré-secular, a idéia de Nação estava unida à de Religião – a coesão social era garantida pela uniformidade religiosa. Nação e religião não se distinguiam, por exemplo, no Império Bizantino, na Igreja Ortodoxa grega e russa, em certas regiões da Alemanha luterana, no xintoísmo, confucionismo, etc, algo que foi separado com o conceito de estado-leigo. Na reforma inglesa, o rei se tornou chefe supremo da Igreja e durante um tempo, somente os anglicanos podiam desfrutar de certos privilégios políticos.

Tillich reconhece que há dois elementos que determinam uma nação: a afirmação de sua natureza e a consciência de sua vocação. Os dois juntos formam o nacionalismo. O perigo é a perversão desse nacionalismo. O nacionalismo deturpado torna-se uma “quase-religião” fascista. Como exemplos, ele cita Grécia, Alemanha, os judeus (a idéia da Aliança), França, China e os EUA com sua idéia de liberdade. Diga-se de passagem, hoje em dia é comum referir-se à “religião civil americana”, fortalecida na era Reagan e atualmente liderada por George Bush. Algo semelhante ocorre com o comunismo – tem raízes religiosas (profetismo e escatologia) que o faz atacar sistemas sacramentais oferecendo propostas éticas e sociais de mudança na história. Todos esses movimentos são ameaças à paz mundial.

Tillich inicia o segundo capítulo (Principes d’un jugement chrétien sur les religions non chrétiennes) com uma afirmação de ordem geral que ele considera fundamental para todas as religiões e grupos sociais: a de que, se um grupo – ou um indivíduo – crê possuir uma verdade, ele recusará por princípio, toda afirmação de uma verdade que se oponha à dele e esse é um direito que não pode ser negado. Portanto, “é natural e inevitável que o cristão proclame a afirmação fundamental do cristianismo de que Jesus é o Cristo e que ele recuse tudo o que contradiga essa doutrina (...) isso significa que o cristianismo, no seu encontro com as outras religiões e com as quase-religiões, deve rejeitar suas afirmações à medida que elas se opõem, implícita ou explicitamente, ao princípio cristão”.

A questão é saber qual a natureza dessa rejeição, se total ou parcial. A rejeição total impossibilita qualquer relação. Na rejeição parcial há mais tolerância, mas continuam a existir pontos intocáveis e a conseqüência é que a relação torna-se geralmente superficial. Ele propõe uma relação de “união dialética de recusa e reconhecimento recíprocos, com todas as tensões, incertezas e flutuações que tal dialética implica”. Para ele, se considerarmos a história do cristianismo como um todo, observaremos uma predominância dessa última posição na atitude cristã em relação às religiões não-cristãs. Essa observação contradiz a opinião geral de que o cristianismo tem uma atitude exclusivamente negativa em relação a outras religiões. Ele busca exemplos dessa atitude já na tradição judaica que afirmava ser Javé superior aos outros deuses porque era o Deus da justiça e na autocrítica profética que ameaçava o povo de Israel por sua injustiça. Isso significa que “o monoteísmo exclusivo da religião profética não é a afirmação do caráter absoluto de um deus particular contra os outros, mas a afirmação do valor universal da justiça (...), um princípio que transcende todas as religiões particulares”. Isso é reafirmado por Jesus em Mateus 25 e na parábola do bom-samaritano.

Na seqüência, Tillich cita o evangelho joanino e o apóstolo Paulo, argumentando que João sublinha mais que os sinóticos o caráter único de Cristo, mas o faz à luz da idéia mais universal de sua época: o Logos. Desse modo, “a pessoa de Jesus é libertada de um particularismo que a teria tornado propriedade de um grupo religioso específico”. Paulo, por sua vez, transcende o legalismo judaico e a libertinagem pagã, incluindo ambos na escravidão do pecado e na necessidade de redenção. Porém, “esta redenção não provém de uma nova religião que seria a religião cristã, mas de um evento da história que julga todas as religiões, inclusive a própria religião cristã”. Esse evento é a manifestação do Novo Ser em Cristo. Da Patrística, Tillich destaca a importância da doutrina do Logos, o Verbo, presente em todas as culturas, preparando-as para sua manifestação definitiva numa pessoa histórica, o Cristo. Essa atitude deu ao cristianismo primitivo uma característica sem precedentes – de não rejeitar absolutamente as demais religiões e, ao mesmo tempo, não aceitá-las sem reservas.

Percorrendo a tradição cristã, Tillich destaca a utilização de conceitos de outras culturas e religiões (especialmente o helenismo) pela teologia cristã e observa que esses conceitos não eram meramente filosóficos, mas também religiosos (physis, hypostasis, ousia, prosopon, Logos, etc). Para ele, o cristianismo primitivo nunca se considerou sob o prisma da exclusividade. Ao contrário, via-se como religião universal, pois a verdade, não importa sua procedência, é cristã. Ele observa que a igreja primitiva moldou suas estruturas litúrgicas a partir de moldes judaicos e das religiões de mistério e organizou-se sob formas jurídicas romanas. A partir daí, propõe traduzir as palavras de Jesus, “sede perfeitos como o vosso Pai Celeste é perfeito”, por “sede universais, como vosso Pai Celeste é universal” e observa, na nota de rodapé, que a palavra “Universal” deve ser entendida como “inclusiva”, ou seja, “que inclui todos e não exclui ninguém”.

É bom observar que, para Tillich, esse universalismo não é sincretismo, pois há um critério último: a afirmação de que Jesus é o Cristo. Ele afirma que, durante séculos, o cristianismo foi universal na Europa e que essa atitude só mudou depois do século XII, quando se intensificaram os conflitos com o Islamismo. A insegurança motivou as cruzadas e o retrocesso posterior, quando o cristianismo fechou-se e fanatizou-se, desenvolvendo um sentimento de medo para com tudo que fosse estranho e passando a encarar com desconfiança tudo que lhe fosse externo. Particularmente, considero essa afirmação bastante discutível, pois muito antes do século XII, as missões cristãs nas ilhas britânicas lutaram fervorosamente para exterminar a religião celta e o mesmo aconteceu em outras regiões.

Mas, em apoio a essa tese, Tillich apresenta uma linha de pensamento que reconhece a existência de uma revelação além dos limites do judaísmo e do cristianismo: Nicolau de Cusa, Erasmo, Zwínglio (que admitia a presença do Espírito além das fronteiras da Igreja cristã), os socinianos que foram os predecessores dos unitarianos e até certo ponto, da teologia protestante liberal, ensinando a existência de uma revelação universal operando em todas as épocas da história, Locke, Hume e Kant, que julgaram o cristianismo à luz do critério da Razão e se serviram do mesmo critério para julgar as demais religiões, o que permitiu o surgimento da filosofia da religião. Cita ainda Schleiermacher e seu mestre, Troeltsch, para quem o cristianismo é a realização de tudo o que há de positivo nas demais religiões. Por outro lado, reconhece que sempre houve também quem enfatizasse o caráter particular e absoluto do cristianismo. Essa linha predominou na teologia de alguns reformadores, na ortodoxia protestante, no pietismo e culminou na neo-ortodoxia de Barth. Embora reconheça que a posição de Barth estava relacionada ao seu confronto com o nazismo, afirma que “o preço que ele (Barth) teve que pagar por essa resistência coroada de sucesso foi a estreiteza teológica e eclesiástica” porque Barth e toda sua escola abandonaram a doutrina clássica do Logos. A conclusão desse capítulo é que ”o cristianismo não pode se contentar em recusar pura e simplesmente as religiões ou quase-religiões com as quais convive. A relação com elas deve ser essencialmente dialética, e isso demonstra, não a fraqueza do cristianismo, mas, ao contrário, sua grandeza”.

A partir dessas premissas, Tillich esboça no capítulo seguinte, um exercício de diálogo entre cristianismo e budismo (Un dialogue entre chrétiens et bouddhistes), servindo-se do método dialético da correlação. Trata-se de um capítulo bastante delicado e até diríamos, ingênuo, pois na verdade, não se trata propriamente de “diálogo”, mas de monólogo, posto que não há um interlocutor budista. Tillich trabalha com “tipos ideais” de cristianismo e budismo. Esses “tipos” são idéias que nos ajudam a compreender e distinguir religiões, mas não existem efetivamente no tempo e no espaço devido às variações particulares de indivíduos e grupos. Ou seja, os tipos não são estáticos, sobretudo num mundo onde há cada vez mais interações culturais e todos os sistemas religiosos acabam se permeando e se influenciando mutuamente. Ele chega até mesmo a estabelecer (sozinho!) os pressupostos para esse “diálogo”, que seriam os seguintes:

a. Cada participante do diálogo deve reconhecer o valor das convicções religiosas do outro e concordar que, em última análise, ela se fundamenta numa experiência revelatória;

b. Os participantes devem representar posições essenciais de maneira convicta para que o diálogo seja uma confrontação série, e não algo superficial;

c. As duas partes devem estar abertas à crítica do outro;

d. Deve-se manter como pano-de-fundo, a referência contínua ao secularismo e às quase-religiões. Assim, o diálogo ultrapassaria o nível das discussões sobre sutilezas dogmáticas e se aprofundaria em problemas comuns a ambas as religiões à luz da situação mundial.


Extraído do site Aviva Missões.

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Sobre o autor: Meu nome é Gilson de Moura, sou cristão evangélico há mais de 30 anos. Não sou pastor, apenas um professor. Contudo, como todo cristão, sou um Missionário, porém mais "com as ideias" do que com os joelhos e bolso. Como todo ser humano deveria ser, também sou um Adorador do Deus Vivo! Casado com a Mari, pai da Camila e do Daniel. Autor do Blog Missões e Adoração.

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