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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Arrependimento na China



Jonathan Goforth foi missionário na China, junto com sua esposa Rosalind Goforth, de 1888 a 1934. Durante a Rebelião Boxer de 1900, ele e sua família foram milagrosamente salvos da morte e conseguiram escapar. Quando retornaram depois, Deus os usou poderosamente em evangelismo e avivamentos na China.

 A comunidade cristã em Shinminfu fora terrivelmente perseguida durante a rebelião Boxer de 1900 na China. Cinqüenta e quatro pessoas foram  martirizadas. Aquelas que sobreviveram prepararam uma lista com 250 nomes das pessoas que participaram, de alguma maneira, no massacre. A idéia era de que, um dia, elas conseguiriam vingar-se dos assassinos.

 Estávamos no meio de um avivamento nessa mesma cidade, alguns anos depois. No quarto dia das reuniões, à tarde, chegamos a um ponto crítico. Tive a sensação de que era uma testemunha num cenário de julgamento. Após três horas de reunião, dei a bênção para tentar despedir o povo.

 Imediatamente, surgiram clamores de todas as partes da congregação. “Por favor, tenha piedade de nós e permita que a reunião continue. Não temos conseguido dormir há várias noites, e assim será esta noite também se você não nos der uma chance de nos livrarmos de nossos pecados.”

 Pedi a uma missionária que levasse as senhoras e as garotas para a ala feminina da escola e ficasse lá com elas até as coisas se acalmarem. Não vi nenhuma outra possibilidade de levar a reunião a um encerramento.

 Enquanto as senhoras e as garotas saíam uma por uma, um dos evangelistas veio para a frente e ajoelhou-se. Ele confessou vários pecados, aparentemente de forma bem sincera, porém a carga que visivelmente pesava sobre sua consciência não parecia ter sido aliviada em nada.

 “Já que você confessou seus pecados”, eu disse para ele, “Deus é fiel e justo para perdoar-lhe de todos e para purificá-lo de toda injustiça. Vá em paz.”

 “Mas não confessei o pior de todos”, ele exclamou em lágrimas. “Eu não quero perdoar.”

 “Então, evidentemente Deus não pode perdoar você”, respondi.

 “É impossível, humanamente, que eu perdoe”, ele explicou angustiado. “No tempo dos Boxers, um homem veio e assassinou meu pai. Desde então, senti que era minha obrigação vingar-me de sua morte. Faz poucos dias que um amigo me escreveu dizendo: ‘Onde está sua lealdade de filho? Seu pai foi assassinado, e você continua sem vingá-lo. Você nem é digno de ser meu amigo’. Assim, eu não posso perdoar àquele homem. Preciso destruí-lo.”

 “Receio dizer-lhe, então”, eu disse, “que a Palavra de Deus é muito clara quando afirma que o Senhor tampouco perdoará a você.”

 Depois disso, ele não respondeu mais nada, porém continuou ali de joelhos, chorando.

 Em seguida, um garoto, aluno da escola, levantou-se e disse: “Em 1900, os Boxers vieram à minha casa e mataram meu pai. Durante todos esses anos, sempre achei que não havia outro caminho a seguir, a não ser vingar aquele mal depois que eu me tornasse homem. Agora, porém, nesses últimos dias, o Espírito Santo me fez sentir tão incomodado que não consigo comer ou dormir ou fazer outra coisa. Sei que ele está instando comigo para perdoar aos assassinos por amor de Jesus. Por favor, orem por mim.”

 Um outro moço contou como seu pai, sua mãe e seu irmão mais velho também foram mortos pelos Boxers. No total, nove garotos foram à frente aquele dia para contar como pais, mães, irmãos e irmãs haviam sido assassinados diante de seus olhos, e como desde então eles haviam vivido na esperança de que um dia conseguiriam vingar essas mortes. Mas todos confessaram que estavam se sentindo muito mal, profundamente incomodados e sem paz, e pediram que orássemos por eles a fim de que tivessem graça para perdoar àqueles que lhes haviam feito tanto mal.

 Depois que as senhoras e garotas saíram, a reunião continuou por mais duas horas e meia. Houve uma corrente ininterrupta de confissões até o fim. E durante todo esse tempo, o evangelista que não conseguia perdoar estava ajoelhado ali na frente, chorando. No final da reunião, ele finalmente se colocou em pé e olhou para a congregação. Seu rosto estava cansado e angustiado.

 “Já tomei minha decisão”, ele bradou. “Não vou descansar enquanto não matar o homem que assassinou meu pai.”

 Achei que nunca mais o veria.

 Quando voltei para o auditório das reuniões, porém, no dia seguinte, lá estava ele perto da plataforma, com o rosto brilhando como a luz da manhã. Ele pediu minha permissão para dizer algumas palavras antes de iniciar a pregação.

 Virando-se para o grupo de alunos, ele disse: “Eu queria convidar os garotos que confessaram ontem e pediram graça para perdoar aos assassinos de seus pais e familiares para que viessem aqui à frente, por favor.”

 Os nove rapazes saíram de seus lugares e ficaram enfileirados à frente da congregação.

 "Eu ouvi suas confissões ontem à noite, garotos”, o evangelista começou. “Ouvi vocês dizerem que estavam dispostos a perdoar àqueles que mataram seus familiares. Depois vocês me ouviram, um líder na igreja, declarar que eu não poderia perdoar e que não descansaria enquanto não tivesse me vingado do homem que matou meu pai.

 "Quando cheguei em casa depois da reunião, pensei em como o diabo tiraria proveito do meu exemplo para tentar ridicularizar vocês na posição que tomaram. As pessoas diriam que vocês são jovens demais para conhecer a própria mente ou coração. Olhariam para mim como um homem inteligente que certamente conhecia o próprio coração e diriam: ‘É claro que ele não acredita naquela conversa tola sobre perdoar seus inimigos’.

 "Portanto, a fim de que o diabo não tire proveito para induzi-los a andar no caminho errado, eu comprei estes nove hinários que vou dar de presente a vocês, na esperança de que, cada vez que os abrirem para louvar a Deus com os hinos nestas páginas, vocês se lembrem de como eu, um evangelista, recebi a graça de Deus para perdoar ao assassino do meu pai.

 Logo em seguida, a lista contendo os nomes das pessoas contra quem os cristãos haviam planejado se vingar foi apresentada, na frente da congregação, e foi rasgada em pedaços pequeninos, para serem jogados fora e esquecidos para sempre.


por Jonathan Goforth (1859-1936)

Fonte: O Arauto da Sua Vinda, Ano 26 nº 3 - Maio/Junho 2008

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