Profetas versus Mestres - parte 2
A igreja da virada do século II e III enfrentava problemas externos e internos.
Os problemas internos resumiam a heresias que haviam surgido no seio da igreja. As duas principais heresias eram o gnosticismo e o marcionismo.
Gnosticismo
A palavra Gnosticismo vem da palavra grega gnosis que significa “conhecimento”. Criam que a carne (corpo) era a prisão do espírito (platonismo), e que haviam seres angelicais (aeons) que habitavam várias camadas entre a terra e o “céu”, o reino da luz, das idéias. Para a alma atravessar tais camadas tinha que ter um conhecimento especial para vencer cada ser angelical. Era uma tentativa louca de “amalgamar” várias religiões. Com o surgimento do Cristianismo, eles viram na figura de Cristo o mensageiro dos deuses para ensinar ao ser humano o “conhecimento” necessário para vencer os aeons (ou eons). Os eons ou aeons eram uma incrível mistureba de tradições e religiões, envolvendo até a ideia dos quatro elementos: Terra, Fogo, Água e Ar, além do 5° elemento, o elemento espiritual, o éter.
Como mensageiro, Jesus não poderia ter “corpo”, pois, assim também estaria aprisionado. Jesus tinha, segundo eles, aparência de carne, aparentou comer, chorar, etc. É o que foi chamado de Docetismo, isto é, aparência. Já no final do século I, João já os combateu. Em 1João 1:1,2 lemos: “Estamos escrevendo a vocês a respeito da Palavra da vida, que existiu desde a criação do mundo. Nós a ouvimos e com os nossos próprios olhos a vimos. De fato, nós a vimos, e as nossas mãos tocaram nela. Quando essa vida apareceu, nós a vimos. É por isso que agora falamos dela e anunciamos a vocês a vida eterna que estava com o Pai e que nos foi revelada”.
A Igreja sabia que o Gnosticismo era heresia, contudo, havia muitos gentios que seguiam esta “religião”. A ideia deles, na prática, era mais ou menos assim, já que a carne é má e o espírito é bom, pois Jesus mesmo afirmou isso Mt 26:41 - “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.”, portanto, posso fazer duas coisas com minha carne: ou vou viver nos prazeres (uma vertente do epicurismo), ou vou castigá-la (uma vertente do estoicismo).
Marcião ou Márcion ou ainda Marcion, estabeleceu uma lista de livros para serem lidos nas suas igrejas. Os escritos de Paulo (remendados, excluindo os judaísmos) e os escritos de Lucas (também remendados) formaram um cânon.
A igreja respondeu formando seu cânon, que inclui 4 evangelhos (um para os judeus, Mateus; um para gregos, Marcos; um para romanos, Lucas; e um para todos, João - uma visão extremamente simplista! Quando ensino meus alunos do seminário sobre isso, levo mais de 5 horas/aula para ensinar a formação do cânon neotestamentário!).
"Prescrição contra os hereges". Na linguagem legal da época, o termo "prescrição" tinha pelo menos dois sentidos.
Em primeiro lugar, uma "prescrição" era um argumento legal que se apresentava antes do caso mesmo, para demonstrar que o julgamento não devia existir.
Se, ainda antes de começar a debater o que se pleiteava, uma das partes podia provar que a outra não tinha direito de apresentar demanda, ou que a demanda não estava correta, ou que o tribunal não tinha jurisdição, cancelava-se o julgamento.
O outro sentido da palavra "prescrição" aparecia em geral na frase "prescrição de longo tempo". O que isto queria dizer era que, se alguém havia estado de posse de uma propriedade, ou de urn direito por certo tempo, e ninguém o havia disputado, essa pessoa ficava de posse legal da propriedade, ou do direito em questão, ainda que aparecesse depois quem o reclamasse.
Tertuliano utiliza o termo em ambos os sentidos, como se tratasse de um pleito entre a igreja ortodoxa e os hereges. Seu propósito é demonstrar, não simplesmente que os hereges não tem razão, ou que estão equivocados, mas, ainda mais, que nem sequer têm direito a entrar em discussão com os ortodoxos.
Com efeito, as Escrituras são propriedade da igreja. Durante várias gerações, a igreja as utilizou sem que ninguém as disputasse. Ainda quando não fossem originalmente sua propriedade, já de fato o são. Portanto, os hereges não têm direito algum ao utilizá-las.
Os hereges chegaram de última hora e pretendem mudar o que, por sua origem e por prescrição de longo tempo, pertence à igreja.
Que as Escrituras são propriedade da igreja, pode-se demonstrar facilmente, bastando para isso olhar as igrejas apostólicas, onde essas Escrituras foram lidas e interpretadas de igual modo desde os tempos dos apóstolos.
Roma, por exemplo, pode mostrar uma linha ininterrupta de bispos que se remontam até os apóstolos Pedro e Paulo. E o mesmo se pode dizer de Antioquia e de várias outras igrejas.
Todas essas igrejas apostólicas concordam no uso e interpretação das Escrituras, segundo vieram fazendo desde os seus primórdios. Ademais, por suas próprias origens, os escritos dos apóstolos são propriedades dessas igrejas, pois foi a elas que os apóstolos os legaram.
Tudo isto quer dizer que, se as Escrituras são propriedade da igreja, os hereges não têm direito de discutir com os ortodoxos sobre a base das Escrituras.
Aqui aparece a "prescrição" no outro sentido. Se os hereges não têm direito a interpretar as Escrituras, toda discussão com eles acerca dessa interpretação é desnecessária. A igreja, dona das Escrituras, é a única que tem o direito de utilizá-las e empregá-las.
Este argumento contra os hereges, utilizado pela primeira vez por Tertuliano, foi empregado, repetidamente, em ocasiões posteriores contra toda classe de dissidentes.
É ou não é um gênio com as palavras! Que direito os hereges têm de usar a Bíblia?
Na próxima postagem veremos os problemas externos da Igreja e como Tertuliano os enfrentou.
Continua
Categorias: Livros, Ministrações, séries



Segurando a corda? Os mantenedores e intercessores.
No altar? Em santidade!

Deixe o seu comentário