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sábado, 16 de maio de 2009

Profetas versus Mestres - parte 2

A igreja da virada do século II e III enfrentava problemas externos e internos.
Os problemas internos resumiam a heresias que haviam surgido no seio da igreja. As duas principais heresias eram o gnosticismo e o marcionismo.

Gnosticismo
A palavra Gnosticismo vem da palavra grega gnosis que significa “conhecimento”. Criam que a carne (corpo) era a prisão do espírito (platonismo), e que haviam seres angelicais (aeons) que habitavam várias camadas entre a terra e o “céu”, o reino da luz, das idéias. Para a alma atravessar tais camadas tinha que ter um conhecimento especial para vencer cada ser angelical. Era uma tentativa louca de “amalgamar” várias religiões. Com o surgimento do Cristianismo, eles viram na figura de Cristo o mensageiro dos deuses para ensinar ao ser humano o “conhecimento” necessário para vencer os aeons (ou eons). Os eons ou aeons eram uma incrível mistureba de tradições e religiões, envolvendo até a ideia dos quatro elementos: Terra, Fogo, Água e Ar, além do 5° elemento, o elemento espiritual, o éter.
extraído de Ice and Snow

Como mensageiro, Jesus não poderia ter “corpo”, pois, assim também estaria aprisionado. Jesus tinha, segundo eles, aparência de carne, aparentou comer, chorar, etc. É o que foi chamado de Docetismo, isto é, aparência. Já no final do século I, João já os combateu. Em 1João 1:1,2 lemos: “Estamos escrevendo a vocês a respeito da Palavra da vida, que existiu desde a criação do mundo. Nós a ouvimos e com os nossos próprios olhos a vimos. De fato, nós a vimos, e as nossas mãos tocaram nela. Quando essa vida apareceu, nós a vimos. É por isso que agora falamos dela e anunciamos a vocês a vida eterna que estava com o Pai e que nos foi revelada”.

A Igreja sabia que o Gnosticismo era heresia, contudo, havia muitos gentios que seguiam esta “religião”. A ideia deles, na prática, era mais ou menos assim, já que a carne é má e o espírito é bom, pois Jesus mesmo afirmou isso Mt 26:41 - “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.”, portanto, posso fazer duas coisas com minha carne: ou vou viver nos prazeres (uma vertente do epicurismo), ou vou castigá-la (uma vertente do estoicismo).

Marcionismo
 
Os marcionistas seguiam a ideia louca de Márcion. Esse camarada afirmava que Jesus (docetismo) era o mensageiro do Deus de amor (dualismo) da Nova Aliança. Na Velha Aliança, Jeová é um Deus ranzinza, maldoso, que castigou os homens dando-lhes corpo. Jesus veio para avisar que o Deus bravo dos judeus poderia ser derrotado pelo Deus de amor ensinado por Jesus.


 Marcião ou Márcion ou ainda Marcion, estabeleceu uma lista de livros para serem lidos nas suas igrejas. Os escritos de Paulo (remendados, excluindo os judaísmos) e os escritos de Lucas (também remendados) formaram um cânon.
A igreja respondeu formando seu cânon, que inclui 4 evangelhos (um para os judeus, Mateus; um para gregos, Marcos; um para romanos, Lucas; e um para todos, João - uma visão extremamente simplista! Quando ensino meus alunos do seminário sobre isso, levo mais de 5 horas/aula para ensinar a formação do cânon neotestamentário!).

Tertuliano o polemista
Ao escrever contra tais hereges, Tertuliano assumiu o papel de Polemista, ou seja, a pessoa que combate os que, dentro da igreja, tentam desviar a fé correta. A sua obre mais importante nesse assunto é "prescrição contra hereges". Veja este trecho extraído da página 121 e 122 do livro citado na primeira postagem:
"Prescrição contra os hereges". Na linguagem legal da época, o termo "prescrição" tinha pelo menos dois sentidos.
Em primeiro lugar, uma "prescrição" era um argumento legal que se apresentava antes do caso mesmo, para demonstrar que o julgamento não devia existir.
Se, ainda antes de começar a debater o que se pleiteava, uma das partes podia provar que a outra não tinha direito de apresentar demanda, ou que a demanda não estava correta, ou que o tribunal não tinha jurisdição, cancelava-se o julgamento.
O outro sentido da palavra "prescrição" aparecia em geral na frase "prescrição de longo tempo". O que isto queria dizer era que, se alguém havia estado de posse de uma propriedade, ou de urn direito por certo tempo, e ninguém o havia disputado, essa pessoa ficava de posse legal da propriedade, ou do direito em questão, ainda que aparecesse depois quem o reclamasse.
Tertuliano utiliza o termo em ambos os sentidos, como se tratasse de um pleito entre a igreja ortodoxa e os hereges. Seu propósito é demonstrar, não simplesmente que os hereges não tem razão, ou que estão equivocados, mas, ainda mais, que nem sequer têm direito a entrar em discussão com os ortodoxos.
Com efeito, as Escrituras são propriedade da igreja. Durante várias gerações, a igreja as utilizou sem que ninguém as disputasse. Ainda quando não fossem originalmente sua propriedade, já de fato o são. Portanto, os hereges não têm direito algum ao utilizá-las.
Os hereges chegaram de última hora e pretendem mudar o que, por sua origem e por prescrição de longo tempo, pertence à igreja.
Que as Escrituras são propriedade da igreja, pode-se demonstrar facilmente, bastando para isso olhar as igrejas apostólicas, onde essas Escrituras foram lidas e interpretadas de igual modo desde os tempos dos apóstolos.
Roma, por exemplo, pode mostrar uma linha ininterrupta de bispos que se remontam até os apóstolos Pedro e Paulo. E o mesmo se pode dizer de Antioquia e de várias outras igrejas.
Todas essas igrejas apostólicas concordam no uso e interpretação das Escrituras, segundo vieram fazendo desde os seus primórdios. Ademais, por suas próprias origens, os escritos dos apóstolos são propriedades dessas igrejas, pois foi a elas que os apóstolos os legaram.
Tudo isto quer dizer que, se as Escrituras são propriedade da igreja, os hereges não têm direito de discutir com os ortodoxos sobre a base das Escrituras.
Aqui aparece a "prescrição" no outro sentido. Se os hereges não têm direito a interpretar as Escrituras, toda discussão com eles acerca dessa interpretação é desnecessária. A igreja, dona das Escrituras, é a única que tem o direito de utilizá-las e empregá-las.
Este argumento contra os hereges, utilizado pela primeira vez por Tertuliano, foi empregado, repetidamente, em ocasiões posteriores contra toda classe de dissidentes.

É ou não é um gênio com as palavras! Que direito os hereges têm de usar a Bíblia?

Na próxima postagem veremos os problemas externos da Igreja e como Tertuliano os enfrentou.


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